As cheias se foram, a água antes barrenta, agora, verde-esmeralda, suave e cristalina, buscando o São Francisco, é fim de verão!

Passa mês de maio, vai chegando junho, o céu descortinado, de um azul translúcido, o sol do meio-dia   enchendo de vida o fundo do vale.

Montanhas alongadas tal como fortalezas, ladeiras, ribanceiras, precipícios de um lado e outro protegendo riquezas de esfuziante beleza: sangras d’água, imbaúbas, ingazeiros … Bandos de maritacas surgindo ruidosas, arruaceiras, fazendo vôos rasantes, cruzam o vale e somem no horizonte. Com toda certeza, coisa linda de se ver que dá muito prazer a quem lá busca lazer. Exagero? Não! Tudo resplandece no solo  do “verdete”!

A brisa de ar soprando, eternamente pura, a água muito boa das grotas sempre farta sob densas matas, saindo fresquinha, quase gelada, verdadeiro paraíso no coração de Minas! Sim, um mundo perdido no sertão do Centro-Oeste, não muito distante, isolado do progresso, livre das chaminés e sem gente por perto.

No leito do rio, a qualidade da água, recém-monitorada, em nível de excelência, entre as melhores de Minas.   

Família Ferreira: o lazer não diminui os compromissos com o meio ambiernte

Família Ferreira: o lazer comprometido com o meio ambiente

Não se trata de gigante, só 222 km! Nasce em Córrego Danta, desce espremido, entre mil curvas.

Rompe Santa Rosa da Serra, passa Dores do Indaiá, Serra da Saudade, São Gotardo, Estrela do Indaiá, Quartel Geral, Cedro do Abaeté, Tiros, Biquinhas, Paineiras,  Morada Nova e, finalmente,  em Três Marias, triste destino! Na grande represa vai ser engolido. 

É ele, sim senhor, é dele que aqui se fala, o Rio Indaiá!

 

(MATÉRIA/ PESQUISA

EM OITO CAPÍTULOS)                            

Palmeira Indaiá, que deu nome ao rio, na região de Biquinhas um dos poucos lugares onde ainda é preservada

Palmeira Indaiá, que deu nome ao rio. O município de Biquinhas é um dos poucos lugares onde ela se encontra  preservada (Fotos de Eduardo Valente) 

DSC079491 – História de um bilhão de anos.

2 – Córrego Fundo e Pirapitinga: o estigma da decadência

3 – Natureza ainda paga preço da devastação

4 – Excelência da água pode trazer peixes de volta.

5 – Moradores juram pacto de amor ao Indaiá

6 – Viagem marcou compromisso de preservação

7 – Instituto de Gestão das Águas aprova água do rio.

8 – Caçador de capivara vira amigo dos bichos.

 

 

Seriemas cruzando a estrada em solo de puro verdete, no Quartel São João, município de Dores do Indaiá (foto do biólogo e professor da UFMG, Fabrício Rodrigues Santos)

Seriemas na estrada do Quartel São João, município do Quartel Geral (foto do biólogo e professor da UFMG, Fabrício Rodrigues Santos)

1 – HISTÓRIA DE UM 

BILHÃO DE ANOS

Quem, pela primeira vez, se candidata a uma viagem de lazer passeando de canoa nos trechos de correnteza ou caminhando pelas margens completamente desabitadas, interrompidas a todo instante por grotas, paredões e precipícios, montanhas de um lado e outro formando vales profundos, logo percebe que acabou de colocar os pés em misterioso território de um mundo diferente, espécie de elo perdido, cenário típico de pré-história, como se o homem, atrás de si, acabasse de desligar o portal do tempo  se desconectando da civilização.

Desde a cabeceira, no Distrito de Cachoeirinha, em Córrego Danta, até a foz no São Francisco, num trecho de 222 km,  o Indaiá percorre um vale profundo, ininterrupto, cavado ao longo de milhões de anos no solo dos grandes maciços de “toazeiro verde”,  o “verdete”. Tal formação geológica sedimentada em área constituída de um torrão de coloração esverdeada se fragmenta facilmente quando sob pressão e força da água.

Estradas vicinais cortam os maciços de verdete

Estradas vicinais cortam os maciços de verdete

Assim, há milhões de anos, ao tempo em que o nascente rio se lançava contra os maciços de “toazeiro” na luta incansável de rasgar e desmanchar o solo à procura de uma passagem, seu leito foi se acomodando e se ajeitando em mil curvas tal como grande e sinuosa serpente, deslizando entre montanhas.

E quando a natureza, finalmente, deu por encerrada sua obra, o resulto foi este que se vê nos tempos atuais: um quadro de indescritível beleza destacada por um curso de água verde-esmeralda, cristalina e transparente, às vezes, em tom amarelado, ofuscante, cor de ouro, quando atingido pelo reflexo dos raios de sol e sempre descendo espremido entre alongadas montanhas e densas florestas.

O renomado geólogo australiano Frank Gaunt, há mais de 20 anos no Brasil, residente na capital federal, já visitou, várias vezes, alguns trechos próximos da ponte sobre o Indaiá, estrada Gordura/Quartel São João, entre os municípios de São Gotardo e Dores do Indaiá.

Família Ferreira colabora na proteção das riquezas naturais

Depois de analisar, cuidadosamente, a formação geológica da área sobre a qual se encaixa o leito do rio, Gaunt, também um especialista em prospecção de jazidas de ouro e diamante, chegou à conclusão de que o “toazeiro verde” é um solo pertencente aos grupos Canastra e Bambuí, maciços de rochas sedimentares também conhecidas por siltitos finos, da era proterozoica média e superior, com idade de um bilhão (ou mais) de anos.

– A região, diz ele,  faz parte também do Arco do Alto Paranaíba caracterizado pela existência do foco das rochas vulcânicas, alcalinas e ultramaficas, além de outras variedades tais como as kimberlíticas sem as quais não seria possível a presença dos diamantes encontrados nos aluviões do próprio Indaiá, do Abaeté, Borrachudo e Funchal.

 – Por sinal, conclui Frank, a rica agricultura nas áreas aplainadas da Serra da Mata da Corda pode ser explicada também por esta mesma formação de rochas vulcânicas. Geomorfologicamente, a paisagem em questão localiza-se no divisor das bacias do Rio São Francisco e Rio Paraná cujos contornos, nos tempos modernos, foram modelados após o período dos dinossauros, entre 60 e 80 milhões de anos atrás”.

                    2 –  CÓRREGO FUNDO E PIRAPITINGA: 

                     O ESTÍGMA DA DECADÊNCIA

Nas décadas de 30 e 40 do século passado, período de efervescência da cafeicultura, grandes áreas de florestas no topo e nas encostas das serras próximas do Indaiá foram devastadas e queimadas de forma aventureira, irresponsável e sem planejamento, ocasionando desequilíbrio e prejuízos à fauna e à flora, além dos problemas sociais.

 Não se cogitou, naquele tempo, de quaisquer técnicas de plantio em terreno tão acidentado, de pouca fertilidade e fácil erosão. O preço a pagar foi dramático: logo veio a decadência do setor e sobrevieram insolúveis questões de exclusão social e terríveis conseqüências.

Por volta de 1960, com a derrocada dos preços e a já baixa produtividade das áreas cultivadas, o abandono das lavouras foi completo obrigando o próprio Governo Federal ao incentivo de um processo de erradicação, através do Banco do Brasil,  no qual pagou por cada cova cortada ou arrancada.

Queda d'água na região acidentada do Córrego Confusão

Cachoeira no Córrego Funchal, local de antiga usina já desativada 

Passada a euforia deste período gerador de riqueza, até certo ponto ilusória, não restou sequer um pé de café entre os milhões e milhões plantados a partir da cabeceira do rio em direção à Serra da Saudade, Estrela do Indaiá, Dores do Indaiá, Cedro do Abaeté, Quartel Geral, Quartel São João e São Gotardo, indo até mais além, pelos lados de Matutina, no histórico Distrito de Fragata.

No município de São Gotardo, ocorreram gigantescos plantios em solo acidentado, de puro toazeiro verde, quase sem fertilidade, no Distrito de Vila Funchal (Gordura), espalhando-se pelas encostas do ribeirão Córrego Fundo até seu desemboque no Indaiá.

Em mil curvas  rumo  ao São Francisco

O referido ribeirão nasce dentro da própria vila e, naquela época, corria inicialmente com o nome de Córrego do Sítio até ganhar mais corpo, alguns kms à frente, onde recebia grande fartura de peixes, principalmente, dourados subindo do Indaiá para desovar.

     Com a queda dos preços e o abandono das lavouras deu-se, então, de forma implacável e dolorosa, início à escalada de um súbito êxodo rural em proporções nunca e jamais imagináveis. Quantidade incontável de famílias sem qualquer chance de acesso ao trabalho partiu rumo aos grandes centros na esperança de melhores dias.

Tal fenômeno ocasionou o esvaziamento de vilas inteiras afetando até mesmo cidades como Dores do Indaiá, Estrela do Indaiá, Quartel Geral, Cedro do Abaeté e Matutina. E tudo dentro de um processo de desertificação galopante e fulminante cujas marcas permanecem ainda nas vilas Funchal (Gordura), Cruzeiro, Quartel São João e Fragata, apesar de algumas delas se beneficiarem, nos dias atuais, do consumo de energia elétrica e telefone.

 São Gotardo só escapou desta tragédia por se encontrar em região na qual, a partir de 1973, por iniciativa do ex-ministro da Agricultura, Allysson Paulinelli, obedecendo determinação do presidente Emílio Garrastazu Médici, foi desapropriada uma área de 60 mil hectares, pertencente ao milionário Antônio Luciano Pereira, onde se implantou o PADAP – Plano de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba. Toda a região se encontra, hoje, sob influência de grande tecnologia agrícola, em mãos dos produtores de origem japonesa.

Este fato, somado ao projeto da Cotia instalado quase na mesma época, é responsável, até hoje, por grande parte do desenvolvimento local e de todo o Alto Paranaíba. Ainda assim, a cidade não se livrou totalmente da crise, perdendo grandes levas de jovens até para o exterior.

 

Lindo véu de noiva na cacheira do Córrego Confusão, próximo a Vila Funchal

Lindo véu de noiva na cachoeira do Córrego Confusão

 O Distrito de Vila Funchal, no auge da cafeicultura, entre os anos 40 e 55 do século passado, chegou a ter seis mil habitantes se considerados todos os moradores da região do Grotão e margens ribeirinhas do Indaiá e Córrego Fundo.  Hoje, sua população não passa de 150 pessoas. Para se avaliar o nível de crescimento populacional na vila,  a cidade de Matutina, ali pertinho, não ultrapassa, atualmente,  o número de quatro mil pessoas.   E isso em todo o município.

Próximo à região de Matutina, a zona da Fragata, colada ao córrego Pirapitinga, foi, em épocas pretéritas, importante rota de referência aos bandeirantes em suas expedições rumo a Goiás. Tal como Vila Funchal, acabou deixada ao completo abandono em função do grande êxodo rural após período de assustador crescimento como grande zona produtora de café.

Barra do Pirapitinga: ribeirão  que afugentou uma população

Nas barrancas do Pirapitinga, “rio do peixe branco”, bem como nas confluências de sua foz, no Rio Indaiá, ainda se encontram sinais de ranchos e ruínas de casas  abandonadas por dezenas de famílias que de lá fugiram para escapar da miséria ou de uma vida sem futuro.

Por volta de 1.935, do século passado, as perigosas enchentes no leito apertado do Pirapitinga eram motivo de grande preocupação para o povo da vila de São José das Perobas, um antigo povoado fundado a partir de 1.826, nas proximidades da Serra da Mata da Corda, cerca de 20 km da barra do córrego Funchal.

Da antiga e efervescente Perobas nada sobrou

Nada sobrou da antiga Perobas

De repente, ainda no ano de 35, dentro de acordo tacitamente acertado pela população, foi tomada a decisão de todos se transferirem para o local que se chamaria, pouco mais tarde, Vila Funchal (Gordura), pelo decreto-lei 148 de 17/12/1938, em substituição ao de São José das Perobas.

Foram épicos momentos em que casas inteiras, igreja, estabelecimentos comerciais, erguidos sob o reforço de resistentes troncos de “aroeira” e muita “peroba”, acabaram desmontados e transportados da Mata da Corda para o Gordura em rangentes carros de bois e lombos de cavalos, com a finalidade de serem remontados ou utilizados em novas construções.

Abandonado e totalmente ocupado por macaúbas e árvores de grande porte, o cemitério de São José das Perobas vai se desmanchando em reínas

Invadido por macaúbas e árvores de grande porte  o cemitério vai se desmanchando em ruínas (fotos de Altoabaeté)

No meio do mato, um dos poucos túmulos ainda intactos.n

Um dos poucos túmulos  intactos

A natureza silenciosa, aos poucos, retoma seu lugar

Silenciosa, a natureza retoma seu lugar

Da histórica Perobas, nada sobrou. O antigo Cemitério no qual foram enterradas pessoas de famílias tradicionais entrou em completo processo de ruínas. Nele estão enterradas pessoas importantíssimas cujos troncos deram origem a mais da metade da população de São Gotardo. Transformado em pasto, quase não se consegue identificar sua antiga área.

Pessoas de troncos familiares importantes, hoje, redidindo em São Gotardo, estão enterrada sob entulhos

Quase impossível localizar sepultura 

 Quanto ao povoado de Vila Funchal, “Gordura”, transformado, na mesma época, em efervescente comunidade a ponto de ter, nos anos 50, do século passado, mais de seis mil habitantes, inacreditavelmente, só tem lá, hoje, o insignificante número de 150 pessoas.

Em se tratando do equilíbrio ambiental na bacia do Rio Indaiá, como já foi dito, a fase de suposto crescimento econômico, embalado no sonho da cafeicultura, causaria grandes estragos. Ao mesmo tempo em que se fazia o plantio das lavouras através da destruição das matas subjacentes ocorreriam nas barrancas e leito do rio grandes invasões de garimpeiros à cata de diamantes ali sinalizados já nas primeiras décadas do século XVIII.

           3 – NATUREZA PAGA 

          PREÇO DA DEVASTAÇÃO

Em pleno período da seca, quando a água desce limpa e cristalina, o leito do rio apresentava a cor avermelhada, do tipo barrento, denunciadora da presença criminosa de garimpeiros em constante degradação das  barrancas e suas poucas baixadas, além de atear  fogo à vegetação ribeirinha

Casa típica da região do Indaiá

Casa típica da região, construída pelo ruralista Antônio Fernandes,  já demolida

Também agindo de maneira nociva no rio, houve forte presença de grandes levas de gente recrutada em todos os cantos de Minas para trabalhar nas lavouras, fixando residência nas proximidades.

Por volta de 1940 até 1960, nos dois lados do trecho à beira da estrada, entre o Gordura e Indaiá, próximo a Boa Vista, encostas do Córrego Fundo e a caminho do Pirapitinga, foram surgindo muitos ranchos de sapé e pau-a-pique, quase todos ocupados por famílias de afro-descendentes. Trabalhavam na colheita (“panha”) e capina do café. Em 1970, após a derrocada da cafeicultura, não havia qualquer sinal deles.

No passado,  muito explorado por garimpos clandestinos

A ação dos próprios cafeicultores, em número muito representativo, além da atividade pesqueira profissional com fins comerciais, através de redes, tarrafas e explosões criminosas de dinamite matando os peixes no fundo do leito ou até mesmo dentro das ovas (abaladas pelo impacto), acabou por provocar a extinção de quase todas as variedades de ricos cardumes originários da bacia do São Francisco.

Junte-se a isto a construção da Barragem de Três Marias,  planejada sem escada para peixes, fato que colaborou, e muito,  para o completo desaparecimento de todas as espécies de grande porte. A Três Marias só facilitou mesmo, nas suas águas paradas, a reprodução da espécie piranha, em escala alarmante, aumentando ainda mais a desertificação do rio e seus afluentes.

Flagrante de uma cena espetacular mostrando orgulhosa, amorosa e zelosa mãe percorrendo - graciosa e ciente do terreno onde pisa com sua ninhada de 22 obedientes filhotes prudentemente pertinhos dela - uma estrada de chão batido em região de agreste arenoso, pelas bandas de Dores do Indaiá, no centro-oeste mineiro.

Flagrante de  cena espetacular
mostrando graciosa e zelosa mãe percorrendo, com sua ninhada de 22 obedientes filhotes,  uma estrada de chão
em região de agreste arenoso, pelas bandas de Dores do Indaiá

Quase 80 anos já se passaram desde o início da grande euforia provocada pela cafeicultura e o conseqüente aumento surpreendente da população nas áreas ribeirinhas.  Atualmente, um número insignificante de pessoas vive naquelas paragens. De êxodo rural nem mais se fala porque não há mais gente para sair de lá.

Toda a área continua isolada como se esquecida do resto do mundo. À beira do vale profundo, só se vê, de forma bem esparsa, alguma residência de fazendeiro. A atividade pecuária, à moda antiga, é praticamente a única ajustável ao tipo regional de solo montanhoso e de pouca fertilidade, sem nenhum compromisso com geração de empregos.

 Não se pode contestar: a monocultura e a ausência de políticas públicas para investimentos em técnicas de manejo, agricultura mecanizada e sustentável, levaram ao mais completo isolamento, os dois lados do vale do Rio Indaiá situados num raio de 70 ou 80 km quadrados. Coincidentemente, toda área de solo pouco fértil e montanhoso do toazeiro verde, o “verdete”!

E isto aconteceu no exato momento de um grande surto de progresso, ali pertinho,  nunca antes visto no Alto Paranaíba, a partir da implantação do PADAP nas áreas aplainadas localizadas entre São Gotardo, Ibiá e Rio Paranaíba. Mas em relação ao “verdete” só restou o isolamento, permanecendo esquecido, até hoje, como se um mundo perdido.

                               4 – EXCELÊNCIA DA ÁGUA PODE

                         TRAZER PEIXES DE VOLTA

No passado, o sonho de riqueza fácil alimentou a fantasia de muita gente originária de todos os cantos do Brasil, até do exterior, enquanto se revolvia e se destruía grandes proporções de barrancas e baixadas no Indaiá à procura de diamantes. Inclui-se aí a própria coroa portuguesa que, entre 1791 e 1795, e depois a partir de 1806 a 1808, fechou toda a área e a colocou sob o controle de um caixa central no Quartel Geral.

Felizmente, nem os garimpos do governo lusitano e nem os particulares se deram tão bem. As invasões clandestinas ainda se repetem, mas nunca vingam por causa da repressão aos infratores e os altos custos para localizar o diamante de aluvião já, agora, bem fundo na terra, além de outros riscos de conseqüências imprevisíveis contra o eco-sistema.

Correntezas  entre gigantescos paredões

O recém-divulgado laudo do Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM, deixa  claro alerta para a necessidade de se generalizar o consenso no sentido de que a verdadeira jóia fulgurante e reluzente do Rio Indaiá é a sua própria água de cor verde-esmeralda, cristalina e transparente. Preservar tal privilégio em nome das gerações futuras é a única saída para solução inclusive dos problemas sociais e econômicos existentes no grande vale

O fato mais importante a ser assinalado, felizmente, em favor da questão de  proteção incondicional ao vale do Indaiá é justamente a ausência nociva ali, a partir dos últimos 40 anos, de populações urbanas e ribeirinha bem como a inexistência local de atividades agrícolas e seus reais perigos causadores de erosão nas encostas, destruição das matas ciliares e contaminação da água por produtos tóxicos levados pela enxurrada da chuva

Pelo menos por enquanto, tais ameaças, já presentes em quase toda a extensão do Rio São Francisco, não constituem quaisquer riscos ao equilíbrio natural do Indaiá que, conforme resultado sobre análises de monitoramento feitas pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM chega a Três Marias praticamente com a mesma excelência de qualidade, tal como vem acontecendo há milhões de anos.

“Não há males que não vêm para bem”. Este velho bordão parece se aplicar, com justeza, ao Indaiá neste momento em que se completam 40 anos de paralisação do processo destrutivo e galopante de suas encostas, barrancas e baixadas como corolário do plantio sem planejamento. Quando o relógio do tempo parou naqueles fundões, transformando tudo aquilo num mundo desabitado e esquecido, a natureza, muito sábia e serelepe, imediatamente começou a agir.

Após quatro décadas, o providencial período de isolamento foi responsável pela transformação de todo aquela paisagem de vales profundos, ainda repleta de beleza natural, em acervo importantíssimo como se fosse um parque ecológico simbolicamente tombado para proteção das reservas de florestas e nascentes. E já se verifica, nas profundezas do vale, de forma cada vez mais consistente, o retorno dos sinais definitivos da antiga e selvagem característica original.

Animais e aves de lá expulsos, capivaras, paca, macaco-prego, o lobo, a jaguatirica, raposa, papagaios, maritacas, tucanos, jacus, biguás e pato do mato, já ensaiam, de forma tímida, mas presentes, o retorno às matas ribeirinhas, grotas e encostas. Pegadas de pacas e capivaras podem ser vistas, rotineiramente, na beirada barrenta do rio ou nas barras dos córregos afluentes.

No leito verde-esmeralda, de água cristalina e transparente, ainda bloqueado no São Francisco pela Represa de Três Marias, só está faltando agora os sinais da presença imprescindível dos cardumes de peixes nobres da bacia do São Francisco.

Montanhas   desestimulam aglomerados urbanos

Um sonho impossível? Não! A qualidade da água, aprovada em nível de excelência pelo IGAM – Instituto Mineiro de Gestão das Águas, superior à maioria dos demais rios mineiros, já seria um bom motivo para que os técnicos em piscicultura, da Cemig, fizessem o redirecionamento, rumo ao Indaiá, dos projetos de “peixamento” relativos às espécies ameaçadas de extinção, o “surubim” e o “dourado”, por exemplo.

 E, certamente, não se trataria de nenhum gesto de favor ou desprendimento.  A reposição de tais espécies deveria se constituir em compromisso sagrado e urgente por parte da cúpula da Cemig.  Seria uma forma de resgatar, com décadas de atraso, uma dívida de grandes proporções da qual o Rio Indaiá é o grande credor da empresa mineira.

Verdade absoluta: há quase 60 anos, ao erguer os paredões da barragem de Três Marias, menosprezando obrigatórios recursos para passagem dos peixes, a Cemig simplesmente precipitou o fim de uma rica variedade responsável por grande fartura nos ribeirões Pirapitinga, Córrego Fundo, Funchal e muitos outros pequenos tributários do Indaiá até hoje privilegiados com água limpa e transparente.

                                      5 –  MORADORES JURAM

                    PACTO DE AMOR

Quem, desde criança, residiu às margens do Indaiá, certamente, ficou habituado e muito apegado ao farto e delicioso luxo de poder matar a sede sob a sombra de matas virgens, fazendo concha com as mãos para beber água fresquinha, quase gelada, de pequenas nascentes ali desembocando, sempre cristalinas, de incrível leveza, oriundas de grotas recônditas. É algo como um privilégio que não se troca nem mesmo por uma temporada de graça nas badaladas praias nordestinas.

Modelo exemplar deste ponto de vista radical é o de Ângelo Ferreira dos Santos, um influente e bem-sucedido advogado nascido na Fragata, ex-morador na barra do Pirapitinga com o Indaiá, e, hoje, sócio-proprietário de grande e conceituado escritório na capital mineira.

Juntamente com mais três irmãos, três tios, dois primos e um amigo de longa-data,   quase todos advogados e membros de uma mesma família, ele esteve no rio entre os dias 18 e 21 de junho último para mais uma curta e costumeira temporada saudosista sempre comprometida com as belezas naturais e a perfeita identidade com o lugar no qual viveu grande parte de sua vida.

Desta vez, porém, o rotineiro seria substituído por uma aventura inédita. Estava combinada, como parte das programações do Dia Mundial do Meio-Ambiente, comemorada em 05 de junho, uma viagem a ser feita em quatro botes num trecho do rio, de 24,3 kms, entre as pontes que ligam Gordura/Quartel São João e Fragata/Cedro do Abaeté. E tinha, como principal e importante missão, um pacto de amor e compromisso visando à preservação das riquezas naturais do vale por eles conhecidas desde a infância.

Família sempre presente no Rio Indaiá: Antero Ferreira, Francisco Assis, Angelo Ferreira , Francisco Ferreira, Eustáquio Ferreira, Aroldo José, Rodrigo, Ricardo e Tobias Ferreira

Ângelo e os demais componentes da expedição num total de dez pessoas, ou seja, seus irmãos Antero Ferreira, Francisco Assis dos Santos e Aroldo José dos Santos; os tios Francisco Ferreira, Eustáquio Ferreira e Tobias Ferreira; os primos Rodrigo de Oliveira, José Francisco Oliveira e o amigo Ricardo de Oliveira, tiveram também uma razão de ordem muito sentimental no momento de escolher o referido percurso.

     Foi exatamente naquela área de solo rochoso do vale, na barra do Pirapitinga com o Indaiá, o local onde a família Ferreira Santos morou por longos anos a fio na tentativa sempre em vão de tirar o sustento na rotina de árdua e improdutiva atividade rural. Houve uma época em que, diante da imperativa necessidade de assegurar um futuro de maior esperança e dignidade, tiveram de fazer as malas e partir, em caráter definitivo, rumo a

Dores do Indaiá.

Tal como uma pandemia implacável e avassaladora, já se fazia presente no vale o período ocasionado pela completa decadência no setor cafeeiro que deu largada ao inevitável fenômeno do êxodo rural. Tratou-se de crise prolongada e geradora de grande intranqüilidade às comunidades estabelecidas naqueles rincões distantes e carentes de recursos e mercado de trabalho.

Atualmente, os irmãos Ferreira Santos, incluindo-se Antônio e Ângela, não presentes na viagem, moram na capital mineira onde exercem advocacia e outras profissões autônomas, mas volta e meia comparecem à  barra do Pirapitinga.

Em firme sociedade com o irmão Antero e os primos Rodrigo de Oliveira e José Francisco de Oliveira, o dr. Ângelo é dono  do conceituado e requisitado escritório Ferreira Santos Advogados estabelecido à rua São Paulo, uma região de classe média alta do bairro de Lourdes. São especialistas em direito penal, tributário, empresarial, cível e área de família, chefiando uma equipe de mais onze advogados, além de serem filiados à RedeJur – associação de escritórios de advocacia empresarial com campo de ação em todo o Brasil, Itália, Portugal e Espanha.

                                             6 –  COMPROMISSO DE

                DE PROTEÇÃO INFORMAL 

Às 9h30m do dia 20 de junho (2008), cerca de 150 metros acima da ponte Gordura/Quartel São João, foi iniciado o percurso de 24,3 km. rio-abaixo destinado a homenagear, naquele instante, os avôs Antônio Cunha e dona Luzia, antigos moradores ali pertinho. O sr. Antônio Cunha (falecido) e dona Luzia residiram em fazendas próximas nas duas margens.

Da equipe de dez pessoas, oito desceram o rio em quatro botes, e duas deram apoio logístico dirigindo as caminhonetas. E, mesmo destituída de caráter oficial, a expedição partiu com a missão de catalogar e tomar muitas iniciativas de monitoramento visando acumular subsídios para comparações futuras e até mesmo servirem de informações complementares às autoridades, caso necessário.

Fatos, por exemplo, envolvendo pesca predatória, bem como sinais de desmatamentos irregulares e garimpos clandestinos, deveriam merecer atenção especial de todos os freqüentadores e moradores ribeirinhos visando a plena colaboração com as autoridades. Sabe-se que é graças ao espírito de cidadania de muitas dessas pessoas a razão do sucesso da Polícia Florestal na maioria dos casos de ações preventivas nos rios mineiros.

Advogado Angelo Ferreira Santos

O advogado Ângelo Ferreira Santos conta que, há cerca de dois anos, houve uma tentativa de garimpagem nesta área de 24 km, mas prontamente reprimida. E o mesmo vem acontecendo contra quem mata animais ou pratica a pesca de forma predatória empregando redes, tarrafas e outros tipos de armadilhas.

Enquanto descia o rio, a expedição pôde registrar, com muita satisfação, um acervo de bom número de animais e aves: capivaras, pacas, macaco-prego, papagaios, maritacas, tucanos, jacus, biguás e pato do mato. Os rastros de capivaras podiam ser registrados a todo instante nas partes barrentas.

     Em relação à preservação das matas, principalmente as ciliares, observou-se que as tradicionais coberturas de “sangras d’água” e “embaúbas”, tão típicas do meio-ambiente local, estão retornando com força principalmente porque as leis de preservação das margens estão sendo aplicadas com todo o rigor.

Por volta de 15h30ms, os quatro botes da equipe Ferreira Santos “apoitaram” a dois km acima da ponte Fragata/Cedro do Abaeté, em frente ao rancho “Porenquanto”, um casebre construído sobre a margem direita do Indaiá em área cedida pelos herdeiros do fazendeiro Raimundo Cocão, “in memoriam”.

Antes disto, contudo, ocorreu um acidente com um dos botes quando, na ultrapassagem do trecho das famosas “corredeiras do inferno”, uma das embarcações bateu e ficou agarrada a um tronco meio submerso quase lançando os tripulantes e apetrechos nas fortes correntes.

As “corredeiras do inferno” ficaram famosas por se constituírem em local de ótimo pesqueiro de grandes dourados, mas a verdadeira inspiração para o seu nome se deu em face de tristes ocorrências de acidentes trágicos envolvendo travessias de canoeiros.

                             7 – IGAM  APROVA ÁGUA DO RIO     

Amostras da água do Indaiá retiradas no trecho do leito acima da represa Três Marias até a cabeceira foram avaliadas com a nota máxima de excelência pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM. Orgulhosamente exibindo a cópia do laudo atestando a feliz notícia, o advogado Ângelo Ferreira quer centrar agora sua luta informal na plena defesa desse privilégio que não tem preço.

Sua firme decisão se dá após a leitura também de outra avaliação do mesmo instituto, em relação ao São Francisco, que resultou num laudo para lá de preocupante. Segundo o IGAM, responsável pelas concessões de direitos de uso dos recursos hídricos estaduais, “a presença de sólidos totais, coliformes, fósforo e a turbidez da água na bacia do grande rio indicam que os esgotos domésticos sem tratamento, os processos erosivos e as atividades agropecuárias são os fatores de maior influência no agravamento da situação. Após as cidades de São Romão, São Francisco e Manga, o IQA – Índice de Qualidade da Água pode ser considerado ruim”.

Toda essa situação degradante do Rio da Unidade Nacional foi colocada numa pauta de discussão pela equipe Ferreira Santos no sentido de que tal desastre jamais ocorra ocorre no vale entre Três Marias e a nascente do Indaiá, em Cachoeirinha, cujo trecho total não é de 226 km, mas de 226 km. devidamente registrados num mapa  feito pelo IGAM, conforme mostra o advogado.

Família atenta fiscaliza possíveis anormalidades  

O Indaiá está protegido, de um lado e outro, desde a nascente até a foz, por montanhas expostas de maneira a dificultar os loteamentos urbanos e o exercício das atividades agrícolas em larga escala, além do privilegio de não estar sendo agredido pelas descargas de esgotos e produtos tóxicos. Precisa, portanto, continuar mantendo preservada toda a sua integridade. Para isto, é necessário que a sociedade e os seus freqüentadores permaneçam em constante plantão de vigília e fiscalização.

Dentro dessa realidade, o advogado acha necessário ficar subentendido que a palavra “Indaiá” tem o sentido principal de englobar todo o conjunto de riquezas naturais, fauna, flora e formação geológica existentes nos dois lados do rio, não se podendo pensar separadamente a maneira de defender o acervo do vale.

Agindo sempre nessa linha de orientação assimilada no instinto da própria vivência de longos anos na região, Ângelo, seus irmãos Antero, Francisco e Aroldo, bem como os demais parentes e o amigo, percorreram também partes dos leitos do Pirapitinga e Córrego Fundo. Muitos subsídios foram recolhidos nestes dois importantes afluentes outrora ”farturentos” de peixes, mas, hoje, relegados a simples pesqueiros de lambaris e bagres, não obstante o alto índice de excelência das águas.

                            8 – CAÇADOR DE CAPIVARA

         VIRA AMIGO DOS BICHOS

Tio Afonso, 95 anos, leva vida  do jeito que gosta

Mas a visita à barra do Pirapitinga teve também outra grata e prazerosa compensação. É ali que reside sozinho, numa simples casa de taipa, o “seu” Afonso, tio-avô dos irmãos Ferreira, uma espécie de bem humorado ermitão nos seus vigorosos e saudáveis 95 anos, a maior parte deles vividos próximos às correntezas do Indaiá desde os tempos em que tudo aquilo era mata fechada. Naquela época, o peixe mandiaçu amarelão, sempre indispensável no almoço, era só uma questão de apanhar a vara e jogar a isca no rio.

Nascido em 1914, no município de Tiros, por ocasião do primeiro conflito mundial no qual a humanidade dava início ao clima de pavor causado pelas armas então inventadas para destruição em massa, “tio” Afonso nunca se interessou nem se ligou, nem quando jovem nem quando amadurecido, nessas notícias corriqueiras de violência tão comuns na grande cidade.

Posteriormente, enquanto caçava, pescava ou capinava sua rocinha de milho à beira do Pirapitinga, respirando o ar puro e benfazejo das matas e montanhas bem pertinho, jamais abriu mão de sua vidinha pacata.

Singelamente humilde e incapaz de fazer alarde do vigor físico, ele conta, do alto de seus respeitáveis cabelos brancos, que jamais precisou procurar um médico. Sempre teve saúde de ferro, não fuma e nem toma bebida com teor alcoólico. Seus únicos prazeres, em se tratando de bebidas, ficam por conta de um cafezinho bem forte e a água cristalina e fresquinha da grota situada próxima.

O prato preferido ainda é um franguinho caipira novo, demoradamente refogado em panela de ferro, na fornalha à lenha, com bastante cebola e alho para o caldo ficar bem amarelo e consistente, sem faltar  cebolinha, salsinha e pimenta, tudo no velho estilo mineiro, “e nada daquela coisa de corante artificial, o tal de açafrão”, diz ele em tom de nojo.

 Só recentemente, ainda assim por insistência de alguns parentes, esteve num consultório para uma revisão “forçada”. O médico, após elogiar sua saúde, dando   tapinhas em suas costas, recomendou apenas a adoção de um cardápio menos carregado de gordura e sal, dieta, certamente, nada fácil para ele. Grandes nacos de carne de porco se encontravam dependurados em varais ou sobre a fumaça da fornalha.

O quase centenário morador do Pirapitinga mora bem juntinho da mata. Quando percorre as barrancas do rio ou está sentado num banco, do lado de fora da casa, sempre se faz acompanhar dos seus sete cães de estimação, entre eles o “piquete”, seu favorito: “uma garantia também para as minhas galinhas criadas soltas contra raposa “ladrona” e gato-do-mato”, afirma.

Verdade seja dita, o  veterano morador daquele fundão, originário de um tempo em que era normal e tolerado carregar, pendurada às costas, uma espingarda para dar uns “tirinhos” numa onça ou num bicho qualquer, está é gostando mesmo e até vivendo os prazeres de  colaborar com a proteção da natureza.

Agora, até prefere cuidar da “bicharada” e da “passarada”, conforme ele mesmo, em tom de promessa, faz questão de deixar claro aos sobrinhos. Enfim, uma virada de total conversão do antigo e experiente caçador de capivara.

Na mata atrás de sua casa, é fácil registrar a presença diária de quase 100 barulhentos jacus que, ininterruptamente, pousam no terreiro para se alimentar, junto com as galinhas, sem se intimidarem com a presença das pessoas. E de tardinha, diante das arruaceiras aves chacoalhando as copas frondosas das árvores, ele, humildemente, confessa: “se fosse antigamente, eu não resistiria. Chegaria bem de mansinho, mirava minha espingarda cartucheira e mandava chumbo, só pra ver o tombo.”

SOBRE  TIO AFONSO:   A opção intransigente de morar sozinho, em idade avançada, sem sequer um parente e vizinhos por perto,  cobrou-lhe um preço fatal. Não tinha como receber os devidos cuidados e nem se alimentava, adequadamente. No dia 30/11/2009, foi encontrado desfalecido, morrendo logo em seguida. E como causa foram apontados claros sinais de desnutrição.

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