No solo rudemente agreste o milagre da vida acontece

É como se uma força divina, infinitamente poderosa, resplandecente, emanada das profundezas etéreas, de repente, tivesse pairado sobre os maciços de “verdete” ali nas proximidades do Rio Indaiá, transformando em templo de reverência à natureza todo esse chão aparentemente estéril ao qual cobriu com suas asas protetoras, em permanente e perscrutadora vigília. Não faz muito tempo, a Cemig, sabiamente, se rendeu e se curvou ante tão irresistível e soberano poder desistindo de ali construir duas usinas hidrelétricas. E, agora, também já vão perdendo força, quais sombras negras do passado, as especulações em torno de grandes empreendimentos sem critérios, exatamente nesta paisagem, visando exploração de potássio e até mesmo jazidas de gás e petróleo. Simultaneamente, tal como se primavera antecipada, a natureza agradece, o milagre da vida acontece, os ipês se cobrem de flores – sublime e divino espetáculo em cores rosa, amarelo e roxo.

                 INCRÍVEL MAR DE LAMA

           QUE VIROU ROCHA VERDE

A partir de julho o predomínio do amarelo

Conduzindo o automóvel em prudente e moderada velocidade na apertada e perigosa estradinha de cascalho engenhosamente cavada nos contornos do longo e laminado pavio sobre os cumes da Mata da Corda – sempre de olho nos precipícios de um lado e outro, as nuvens quase ao alcance da mão – o desconhecido viajante que pela primeira vez fizer opção por esse roteiro, certamente, se deixará tomar de espanto e deslumbramento ao avistar, do alto daqueles paredões, já a pouca distância da pequenina Vila Funchal, a grandiosidade do cenário interminável se descortinando no horizonte.

Ipês e macaúbas, vitalidade em plena estiagem

Sim, pois tanta beleza diante dos olhos de quem busca esse roteiro é o resultado da mais pura verdade: esta incrível e portentosa paisagem, até onde a fragilidade do olhar humano pode abarcar, é exatamente o palco de fenômenos estupendos ocorridos em épocas pretéritas, partindo das  forças incontroláveis e incompreendidas da natureza. Nela se forjou, há cerca de um bilhão de anos, numa área aproximada de 300 km quadrados (já se calcula 500 km), um mundo de singular beleza e rusticidade, de solo rochoso esverdeado, inconfundivelmente diferenciado, que a sábia e secular tradição popular acabou identificando como  sua  marca de referência: “o verdete”.

Natureza caprichosa tal como nos quadros de Van Gogh

Geológica e cientificamente, o verdete também popularmente conhecido por ”toazeiro verde” é identificado, segundo o conceituado geólogo australiano Frank Gaunt,  por maciços de rochas sedimentares pertencentes aos grupos Bambuí e Canastra, uma lama argilosa que, há cerca de um bilhão de anos (ou mais), se solidificou tomando cor esverdeada, virginalmente rústica e agreste, praticamente sem se deixar misturar a quaisquer outras formações.

Embora se tratando de área próxima a um importante rio, muitos córregos e fartas nascentes de água cristalinas disfarçadas sob matas verdejantes dentro de profundas grotas,  esta formação montanhosa de terreno rochoso compactado se apresenta aos olhos do leigo, nos frios meses de maio e junho, como se de uma paisagem esturricada, desolada, desertificada e de pouco fascínio.

Córrego Confusão: rasgando maciços, formando cachoeiras

Abrangendo, principalmente, os municípios de Serra da Saudade, Estrela do Indaiá, Dores do Indaiá, Quartel Geral, Quartel São João, Cedro do Abaeté, Vila Funchal (distrito de São Gotardo), Matutina e parte de Tiros, esta região rochosa de longos e agrestes maciços é privilegiada pela proximidade das águas do Rio Indaiá e os córregos Funchal, Pirapitinga, Fundo e Confusão (estes dois próximos a Vila Funchal), além de uma infinidade de pequenos outros ribeirões escondidos nos fundos de grotas cobertas por densas matas. Tal cenário se apresenta como região dividida em mil “espigões” desolados, de aparência estéril, mas sempre bem  próximo a locais verdejantes.

Cacheira do Funchal, local de antiga usinahidrelétrica

Cachoeira do Funchal,  antiga usina hidrelétrica

No séc. XVIII, a Serra da Mata da Corda foi batizada com este nome em função de possuir, em ambos os lados de suas fraldas, um vasto cordão de mata acompanhando toda sua longa extensão, como se no formato de grande e interminável pavio. Há milhões de anos, quis as poderosas forças conjugadas da natureza que os braços deste maciço espalhados também pelos lados de Matutina e Tiros se fundissem com a Serra da Saudade, nas cabeceiras do Indaiá, bloqueando e estancando, sob tais fraldas de quilométricos paredões, o gigantesco mar de lama verde argilosa para lá empurrada.

Quem desce o Indaiá, a partir da nascente, no Distrito de Cachoeirinha, município de Córrego Danta, poderá observar que mais da metade de sua calha de 226 km foi cavada pela água em lento e milenar processo de desmanche destes maciços de argila esverdeada solidificada em “toazeiro” enquanto procurava uma saída, acomodando-se em mil curvas qual grande e sinuosa serpente deslizando entre profundas fortalezas.

O incrível mesmo é que este mundo aparentemente improdutivo de solo tosco e duro, da noite para o dia, pode revelar surpreendentes e maravilhosas transformações capazes de atrair e sensibilizar os olhares das pessoas, mesmo quando não curiosas. Pena que tais sentimentos não se repetem  em relação a indivíduos sempre  ali aparecendo  com projetos inspirados na vil cultura do oportunismo, levando somente  ameaças de destruição.

 Em Matutina

Nos meses de julho e agosto, o viajante que trafega pelas partes altas da Mata da Corda, a partir de Matutina, tem o privilégio de gravar, eternamente na memória, cenários de magnífica área, passando por Água Limpa e Fragata, os famosos morros Fragata e Nau de Guerra, já no município de Tiros, até a ponte sobre o Rio Indaiá, desfilando entre quantidades infindáveis de ipês amarelo e rosa.

A região de Matutina possui uma das paisagens mais luxuriantes do verdete. Não se pode falar de tão gigantesca formação rochosa sem antes ter visitado este município. Na entrada da cidade, já se vê, à esquerda, a solitária estátua do Cristo Redentor, sempre transmitindo serena mensagem de proteção aos moradores, tendo bem ao lado um viçoso ipê com os galhos completamente carregados  de lindas flores amarelas.

                FRONTEIRA ONDE O VERDE

                 E VERMELHO SE ROMPEM

Após se surpreender diante da esplêndida visão do alto da Mata da Corda, o viajante que tiver iniciado seu roteiro em São Gotardo sobre trecho de terra avermelhada do cerrado, com certeza, ficará novamente boquiaberto logo depois ao cruzar o pequeno conjunto formado por singelas casas circundando a pracinha central de Vila Funchal. É como se, de repente, tivesse cruzado a janela do tempo, embrenhando-se num mundo misterioso de cor e formação geológica radicalmente diferente e muito semelhante ao dos cenários mostrados nos filmes de pré-história.

Vila Funchal, caminho do Rio Indaiá

Este fenômeno ocorre logo no declive de saída do pequeno povoado, rumo ao Indaiá, onde o forasteiro se vê – e não há como deixar de ser notado – diante de radical mudança da paisagem, num chocante, incrível e bem definido fenômeno de completo rompimento entre fronteiras de terras vermelha e verde. E tal como já referido em anterior artigo nosso, o solitário viajante tem a certeza, em definitivo e de fato, que se encontra sobre o solo de um de mundo intrigante, espécie de elo perdido, como se, atrás dele, tivesse acabado de desligar o portal do tempo, desconectando-se  da civilização.

Nesse momento ainda se percebe que toda a geografia irregular formada por maciços de torrões milenarmente ressecados nas encostas acidentadas – os barrancos nas duas margens da secular estrada, em franco declive, buscando o Indaiá –  se transforma numa paisagem tórrida, aparentemente desolada, mas luxuriante, de puríssimo verde, posto que o terreno rochoso e a rala vegetação se fundem numa mesma e única coloração: o verdete.

Artista Renato Costa, muito popular em Dores do Indaiá, busca na rocha macia do verdete sua inspiração para esculpir personsagens bíblicos, tal como "Aleijadinho". Na foto, uma reprodução do profeta Jonas

Artista Ricardo Costa, muito popular em Dores do Indaiá, busca na macia rocha   “verdete” sua inspiração para esculpir personagens bíblicos, tal como “Aleijadinho”. Na foto, uma reprodução do profeta Jonas

Euclides da Cunha, jornalista narrador nos mínimos detalhes e em toda a crueldade  do  massacre de sertanejos ocorrido na Guerra de Canudos, imortalizou  sua obra “Os Sertões” quando descreveu, no sertão da Caatinga, sob forte comoção, o cenário da natureza e sua incrível capacidade de sobreviver aos efeitos e influências escaldantes  do sol nordestino. Tudo aquilo por ele enumerado está também, de certa forma, muito presente no verdete. O genial escritor é considerado, hoje, exemplo nacional de primeira manifestação ecológica detalhadamente preocupada em documentar os fenômenos incidentes sobre aquela sofrida região.

Estrada poeirenta, esverdeada, cortando o solo rude

O verdete, de certa maneira, aos olhos do simples leigo, se apresenta, nos frios meses de maio, junho, julho e agosto, distante ainda da estação chuvosa, como se acusando os sintomas de paisagem desolada, estéril e ressecada. Neste período, o capim fragilmente enraizado entre pedaços de torrões e rala vegetação se encontra esturricado e amarelado pela ação de baixas temperaturas e muito sol.

Mas estará redondamente enganado aquele que, diante do cenário característico destes meses, se deixa levar pela primeira impressão. Na verdade, quem conhece bem aquela formação geológica sabe que ali acontecem verdadeiras transformações, da noite para o dia, justamente quando tudo parece estar sucumbindo ao calor, período no qual as árvores de grande porte, a exemplo das aroeiras, se apresentam esqualidamente desfolhadas.

               PARAÍSO EM ROXO,

               AMARELO E ROSA

Pois sempre foi desse jeito, entre o período chuvoso e a sequidão, a rotina naquele fundão do Indaiá onde as preciosas aroeiras enfeixadas numa área de histórica e secular referência, a poucos metros de Vila Funchal, se apresentam desfolhadas e  esqueléticas, como se a vida tivessem perdido, não obstante ser isso mera ilusão. Elas constituem parte de importante vegetação nativa, de excepcional longevidade, além de firmes e profundamente enraizadas no chão de duro toazeiro em cenas também repetidas entre Dores do Indaiá, Quartel Geral, Quartel São João e beira do Pirapitinga.

Num exemplo de magnificência e de plena sabedoria da natureza, ali mesmo, no interior do próprio bosque de aroeiras, próximo de Vila Funchal, um cenário de beleza inusitada se descortina aos olhos de quem, por feliz coincidência, estiver passando. O que se verá, à esquerda e à direita, é algo indescritível, soberbo, verdadeira obra prima do mais fino e delicado lavor representada por esfuziantes exposições de ipês fartamente encorpados de flores rosa, amarelo e roxo, em perfeita sintonia ostensivamente destacada entre árvores e rala vegetação.

É como se uma força divina, poderosa, regurgitando  das profundezas etéreas, de repente, tivesse pairado sobre o verdete transformando tudo aquilo em templo dedicado à proteção da natureza, cobrindo com suas asas infinitas a imensidão dos vales, encostas, topos de montanhas, rios e florestas, em permanente vigília contra todo tipo de ameaça.

Flagrante de uma cena comoventemente espetacular mostrando orgulhosa, amorosa e zelosa mãe percorrendo - graciosa e ciente do terreno onde pisa com sua ninhada de 22 obedientes filhotes prudentemente pertinhos dela - uma estrada de chão batido em região de agreste arenoso, pelas bandas de Dores do Indaiá, no centro-oeste mineiro.

 Comovente e espetacular flagrante de uma graciosa, zelosa e   amorosa mãe percorrendo –  ciente do  terreno onde pisa com sua ninhada de 22 obedientes filhotes  – uma estrada de chão batido em região de agreste arenoso, pelas bandas de Dores do Indaiá, no centro-oeste mineiro.

Em 2010, a Cemig, em surpreendente e sábia decisão de cunho ecológico, desistiu de instalar ali pertinho, no Rio Indaiá, duas grandes hidrelétricas. E agora, simultaneamente, já vão arrefecendo também, quais sombras negras do passado, as especulações em torno de projetos sem critérios, visando exploração de potássio e jazidas de gás e petróleo nesta paisagem concentradora dos preciosos acervos de exuberantes ipês e aroeiras, entre tantas outras espécies valiosas. Coincidentemente, assim como se agradecesse, a natureza explodiu em flores, espetáculo de primavera antecipada, algo que há muito não se via.

Ipê à beira de estrada, Fazenda de Leninha Carvalho, dois km após Vila Funchal, rumo ao Indaiá

 Fazenda de Leninha Carvalho, dois km após Vila Funchal

Em meio a tanta sequidão e sinais de aparente e generalizada desolação típica de prolongado período da seca, enfim, daquele sertão agreste de onde nada mais se poderia esperar, emerge um mundo deslumbrante, cheio de vida, marcantemente roxo, amarelo e rosa, caracterizado ainda mais intensamente quando exposto sob o reflexo de forte calor do sol.

Nestes momentos, por volta de 15 ou 16 horas, é possível sentir, a vários metros de distância, o perfume que se desprende dos cachos de flores distribuídos de forma densa e compacta nas árvores em cujos galhos não se nota uma única folha. Embaixo, aos pés dos troncos, o chão do “toazeiro” vai cedendo lugar ao amarelo, roxo e róseo, formando espessos tapetes de singular e selvagem beleza.

Faz-se necessário registrar. Não está sendo enumerado aqui apenas uns poucos exemplares de árvores cobertas de flores. Estamos falando de maravilhas, aos milhares, que podem ser contempladas a partir de Vila Funchal, passando por toda Boa Vista, vale e margens do Indaiá, Matutina, Fragata, Cedro do Abaeté, Dores do Indaiá, Estrela do Indaiá, Quartel Geral, Quartel São João e Serra da Saudade.

Indaiá, acima da ponte Fragata/Cedro do Abaeté

Em relação às represas, é bem verdade que a resolução da CEMIG de optar pela desistência se deu após muitos debates em torno de denúncias sobre ameaças e riscos reais ao patrimônio de riquíssima biodiversidade nos vales, encostas e córregos tributários do Indaiá. Mas por envolver setor altamente estratégico do qual o país é dependente, não se esperava, por parte da companhia elétrica, nenhuma concessão visando revogação dos projetos.

Por causa disto, a surpreendente decisão da empresa, assim como o enfraquecimento das especulações em torno da exploração de potássio e jazidas de gás, enfim, dois setores característicos de poderes ilimitados e movidos apenas por interesses econômicos, ainda são vistos como verdadeiros milagres.

Algo como um sonho inconcebível de ser realizado, só mesmo possível se emanado de uma força poderosa que brota das entranhas desta misteriosa e gigantesca formação rochosa. Neste país, se existem casos de cancelamento de represas, sequer podem ser lembrados, por se tratarem, com certeza, de raríssimas concessões.

                      FLOR DE NOME SANTO,

                ELIXIR DA LONGA VIDA

Ao longo do século passado, numa demonstração de despreparo e ausência de conhecimentos sobre preservação da natureza, fazendeiros dizimaram, aos poucos, nas grotas e encostas,  imensas reservas constituídas de perobas (rosa e branca), jacarandás, sucupiras e ipiúnas, tão tipicamente regionais. Contudo, sempre se detiveram sensibilizados ante as insinuantes cores, amarelo, rosa e roxo dos ipês, motivo pelo qual tais espécies até se multiplicaram, ganhando símbolo de verdadeiro cartão de visitas.

Nascido no Quartel São João, o conceituado biólogo Lázaro Araujo de Oliveira  informa que, apesar da devastação, a região ainda é caracterizada pela forte presença – além das variedades “quaresmeira”, “embaúba”, “sangra d’água”, “ipês” e “aroeiras” –  de muito “ingá”, pau d’óleo”, “marinheiro”,  “gonçalo”, “açoita cavalo”, “mandiocão”, “jatobá”, “pindaiba”, “paineira”,  “lobeira”, “angico”, “manjoleiro”, “murici”, “jacarandazinho”, “mutuqueira”, “cipó prata” e grande acervo de  palmeiras (coco macaúba). Apesar da extração sem controle, se verifica também bastante palmito no interior dos pequenos cursos de água (grotas), e muita riqueza em samambaias, avencas e  espécies de orquídeas e bromélias.

Ao mesmo tempo em que a vida nas encostas e espigões persiste em se fazer presente através de maciça floração dos ipês, como há muito não se verifica, no fundo das grotas as quaresmeiras também se mostram cheias de vida, em pleno mês de julho, sobrepondo e contrastando sua forte cor roxa aos galhos encorpados das matas verdejantes.

Cipó São João, enroscado nas macaúbas, cupins e árvores

Também desperta a atenção de quem percorre o verdete, bem enroscada nas árvores, macaúbas e cercas de arame, uma planta bem natural de lá: o famoso “Cipó São João”.  Sua flor é de um vermelho gritante e suas hastes, apesar de pequenas, em forma de trompa, coisa de 10 ou 12 cm., são semelhantes às barulhentas cornetas “vuvuzelas” africanas  tão em moda durante a Copa do Mundo, na África do Sul.  De junho em diante tais “vuvuzelas” se tornam uma marca registrada como se cornetinhas apontadas para todo o sertão, quebrando a monotonia e a rusticidade do “toazeiro verde” com seu apelativo tom avermelhado, parecendo anunciar os tradicionais festejos comemorativos do santo inspirador do seu nome.

Moradores antigos preservam uma tradição passada de pai para filho segundo a qual a flor do “Cipó São João possui um precioso néctar na forma de milimétrica gotinha depositada no fundo do caule e de cujo corte com os dentes, é possível sugá-la. Isto deve ser feito  sempre no horário da manhã quando os beija-flores também estão presentes já à caça desse tesouro. A gotinha quase imperceptível e de sabor adocicado e suave teria os efeitos de um elixir impregnado de poderosa substância capaz de prolongar a vida.

Esta tradição muito saudável conta que o uso rigorosamente matinal desta mínima poção mágica tem ainda outras propriedades milagrosas, sendo, por isso mesmo, chamada de néctar da longa existência. O editor deste site, grande apreciador convicto, quando criança, dos poderes mágicos nela contidos, acredita, de fato, na possibilidade de poder viver além dos cem anos.  Em tempo: o néctar só está presente quando as  flores se abrem em pétalas.

Árvores Cedro cercam a Igreja de Cedro do Abaeté

Não sem motivos, o roteiro do Circuito Caminhos Turísticos do Rio Indaiá, com sede em Dores do Indaiá, de Ciça Sá e Eduardo Lacerda Valente, é todo inspirado e orientado nesses tesouros de  beleza incomparável, fazendo um giro ainda maior, tendo o Rio Indaiá como eixo: Quartel Geral, Quartel São João, Estrela do Indaiá, Cedro do Abaeté, Biquinhas, Paineiras, Abaeté, Fragata (os sugestivos montes Fragata e Nau de Guerra), Água Limpa, Matutina, Vila Funchal (Gordura), os importantes córregos, Pirapitinga, Fundo, Confusão, Funchal, e concluindo no município de Serra da Saudade.

A reportagem deste site percorreu, no mês de julho último, estes mesmos caminhos do Circuito Turístico, antigamente utilizados por sertanistas, garimpeiros e boiadeiros quando em direção a Paracatu/Goiás ou Triângulo Mineiro (Sertão da Farinha Podre). Em conformidade com as regiões de procedência, tinham três picadas. A da atual estrada, na barra do Funchal, entre Serra da Saudade e São Gotardo; a da ponte Gordura/Quartel São João, indo para o então quartel Guarda dos Ferreiros; e o presente trecho Cedro do Abaeté/Fragata.

Quem, nestes tempos, por ali trafega, subindo e descendo montanhas, em meio a “canudos” de poeira branco-esverdeada, sente a marca e o cheiro da história nos antigos caminhos sulcados em profundos barrancos de solo rochoso e duro, contemplando ipês floridos, aos milhares, à beira do Indaiá, córregos, encostas e cumes dos maciços.

Rio Indaiá, editor deste site, ponte Fragata/Cedro do Abaté (clique na foto para ampliar)

Já nas primeiras décadas do séc. XVIII, bandeirantes e sertanistas que se utilizavam da Picada de Goiás em direção a Paracatu – cruzando o Indaiá na Serra da Saudade ou nas imediações da atual ponte Fragata/Cedro do Abaeté – enviavam mensagem ao governador da capitania, em Ouro Preto, relatando a incrível coloração verde daquele mundão. Nos capítulos iniciais do épico processo de interiorização do território mineiro, a terra esverdeada já provocava a cupidez dos mais abastados da capitania, como se fosse alguma coisa de precioso valor.

O biólogo Lázaro Araújo de Oliveira, residente em Dores do Indaiá, não esconde o grande orgulho que tem por sua região. E, por causa disto, se diz até suspeito ao falar de lá, mas não tem dúvidas de que o lugar é um dos mais interessantes para visitas, tanto pela beleza quanto pelas  paisagens e formações peculiares típicas e únicas. Sem contar, obviamente, as histórias de bandeirantes, os garimpos de diamantes, morro da Fragata (seus mitos e verdades), Capão da Fortuna, Pico do Pé da Menina, Morro do Capacete e a caverna (Cedro), cachoeira do são João, etc.

                 CULTURA DA DESTRUIÇÃO

                  VAI SENDO SUBSTITUÍDA

 Indaiá próximo à região da Fragata

Quase 80 anos já se passaram desde o início da grande euforia provocada pela cafeicultura em toda essa região caracterizada pelo verdete. Quem por ali anda, vendo o gado se alimentando na pastagem formada de capim braquiária ocupando agora o lugar dos tradicionais “provisório”, “meloso” e o próprio “sapé”, não pode imaginar que tudo aquilo já foi área de grandes lavouras de café.

Monte Fragata, já no município de Tiros

As ladeiras do córrego Fundo, e do Pirapitinga, pelos lados de Vila Funchal e Fragata, eram todas cobertas de cafezais, período fulminante e passageiro, de muita riqueza, no século passado, entre os anos 1930/60. Atualmente, um número insignificante de pessoas vive naquelas paragens. Do êxodo rural ocorrido após a falência do setor nem mais se fala, visto não existir mais gente pra sair de lá. Só ficaram os donos de terras.

Toda a região está isolada como se esquecida do resto do mundo. À beira do vale profundo, só se vê, de forma bem esparsa, alguma residência de fazendeiro. A atividade pecuária ainda é praticamente a única ajustável ao tipo regional de solo montanhoso e de pouca fertilidade, sem nenhum compromisso com geração de empregos.

Conforme já dissemos em anterior matéria de pesquisa, a ausência de políticas públicas incentivadoras de investimentos em técnicas de manejo, agricultura mecanizada e sustentável, para romper com a prática exclusiva de pecuária ainda nos moldes antigos, deixou no mais completo isolamento os dois lados do vale do Indaiá, coincidentemente, toda área de solo pouco fértil e montanhoso constituído de “toazeiro verde”.

Cinqüenta anos não é tempo pequeno, é a referência cronológica da metade de um século. Neste período, as lavouras desapareceram sem ficar sequer um pé, momento oportuno que a natureza, eternamente sábia e serelepe, aproveitou para fazer sua parte. Aos poucos, ela vai se impondo nas baixadas do Indaiá, nas encostas e grotas, mostrando matas já exuberantes, bem como trazendo de volta muitas espécies de animais e aves de lá expulsos pela devastação e constantes queimadas.

É bem verdade que os meses de agosto e setembro sempre causam preocupação por causa de outra ameaça ao solo perigosamente seco quando alguns proprietários, hoje, se constituindo em raríssimas exceções, ainda se utilizam de “queimadas” como método mais econômico de limpar seus pastos. A “bateção” (corte de ramagens) com emprego de foice, exige mão de obra muitas vezes buscada fora e difícil de ser encontrada. Mas, independente disto, sempre foi tradição culturalmente regional atear fogo nas áreas de pastagem, um pouco antes da chuva para, com a posterior terra molhada, facilitar o broto tenro da relva, beneficiando a alimentação do gado.

Como resultado, as encostas foram dura e secularmente devastadas, tornando a terra ácida e abrindo caminho à proliferação do famoso sapé, de raízes profundas e de difícil combate. Este processo, contudo, vai sendo substituído por uma mentalidade nova já ali se enraizando através da semeadura de outras variedades de capim mais resistentes à estiagem.

O importante mesmo é que a lenta escalada de renovação da natureza vem sendo merecedora, cada vez mais, da cumplicidade benfazeja do homem após longo período de imprudência e excessos em que se permitiram também devastações de matas inteiras para retirada de madeira, acabando por secar nascentes de água e influindo na desvalorização da própria terra. No verdete de hoje, muitos proprietários lá estabelecidos possuem nível cultural  em grau superior, pelo que todas as suas atividades são sempre decididas em cima de projetos comprometidos com a preservação equilíbrio ecológico.

  

Não se trata de simples acaso, portanto, a incidência cada vez maior das espécies de ipês, além de tantas outras variedades tais como a embaúba e a “sangra d’água”. Estas duas, tão perseguidas no passado, à beira dos rios, cedendo lugar ao plantio de roças, vão gradativamente recuperando espaço.  Nada disto seria possível sem o devido engajamento dos proprietários de terra e a contribuição da própria fiscalização dos órgãos competentes, hoje, agindo com todo o rigor.

Por sua vez, a CEMIG, durante seus minuciosos levantamentos com fins de erguer ali duas represas teve oportunidade de ouvir opiniões técnicas e científicas de biólogos e ambientalistas, após o qual decidiu pelo cancelamento, definitivo, dos dois ameaçadores projetos, num gesto de sábia e humilde rendição e submissão em favor da natureza.

Agora não tem mais volta. O espírito de vigilância inspirado no sentimento de proteção ao riquíssimo acervo de biodiversidade se encontra generalizado naqueles maciços, tendo a exuberância das matas e as águas cristalinas do Indaiá como símbolo de referência e luta. Todos querem contribuir, de uma maneira ou de outra, fazendo sua parte. E é neste ritmo que, após décadas de muita destruição, tudo aquilo lá vai se recompondo, se reerguendo, já deixando entrever, pouco a pouco, os milenares sinais anteriores do seu belo e imenso patrimônio de riquezas naturais.

(Esta matéria foi publicada em agosto de 2010)

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