Por causa de interpretações erradas tendo por base apenas a documentação oficial mais recente sem o devido comprometimento com a história pretérita de São Gotardo, capítulos ainda mais edificantes e significativos sobre suas origens, sua cultura e suas tradições, ficam fora do calendário de festas todos os anos ao se comemorar  a emancipação administrativa como se fosse a principal data do município.

Assim é que, em 30 de setembro,  quando a cidade estiver festejando seus 94 anos de autonomia, corre-se o risco, tal como vem acontecendo sempre, de se esquecer um fato muito mais importante: o de que ela deveria estar comemorando mesmo, neste dia,  é o seu aniversário de 172 anos de vida. Isso mesmo, mais de um século e meio de existência desde a fundação, em l836, com a denominação de Arraial da Confusão.

O certo  é que a celebração da autonomia administrativa ocorrida em l9l4 vem sendo confundida inclusive por historiadores como data de fundação da própria localidade, um grande equívoco que engole 79 anos de história vibrante e repleta de questionamentos ainda à espera de esclarecimentos, tendo como início de tudo o arraial da Confusão.

Na visão “ oficializada” de nove décadas, temos, reconhecidamente, um patrono fundador desde l836, mas uma festa que praticamente só engloba o período a partir de l9l4/l5. Ficam de fora, portanto, nossas verdadeiras raízes, nossa cultura, nossas tradições e, enfim, a memória sobre a participacão de muitas famílias pioneiras no estabelecimento e formação do município. Uma perda irreparável da própria referência.

É preciso ficar claro que São Gotardo, com o título de cidade, só poderia comemorar 83 anos, pois este diploma legal só lhe foi concedido em l925 pela edição da lei de número 893 de l0 de setembro, ou seja, 10 anos após conquistar a soberania administrativa.

Para se ver como a história primitiva vem sendo ignorada por causa da inexistência da preocupação de se

retroagir com profundidade às verdadeiras raízes, o topônimo São Gotardo foi escolhido, há exatos l23 anos, pela lei 3.300 de 27 de agosto de l885, mas pouca gente sabe da importância desse dia. Somente por este detalhe, o calendário festivo oficial  já deveria estar modificado.

Aos defensores do atual procedimento sob a alegação de que a cidade, antes de l9l4/l5, não passava de um arraial ou distrito de paz, trazemos dois exemplos inquestionáveis de localidades famosas cuja escalada histórica é a  mesma em pauta: Mariana e Ouro Preto.

Mariana foi à primeira vila, primeira cidade, primeira sede de bispado e primeira capital de Minas. A povoação se iniciou em l6 de julho de l696 e seu primeiro nome foi Vila Real de Nossa Senhora do Carmo. O topônimo prevaleceu até 1745 quando, por ato de D. João V, foi elevada a cidade com a denominação de Mariana. Entretanto, se o assunto é a idade daquele valioso centro histórico, ninguém aceita contar a partir de 1745, somente  de 1696 em diante.  Querem a prova disto? Todos os anos, no dia l6 de julho, o Governo de Minas transfere para lá a sede da capital do Estado como se ela  tivesse sido cidade desde o primeiro dia.  E com idade de 312 anos e não 49 a menos. Recentemente vimos a solenidade ser repetida.

A região de Ouro Preto, descoberta dois anos após, é um caso ainda mais romântico de como os próprios historiadores fazem questão de recuar no tempo. O sertanista Antônio Dias de Oliveira ali chegou no dia 24 de junho de l698. Foram surgindo em torno das minas os arraiais que formaram a então Vila Rica de Albuquerque. A designação permaneceu até 1823 quando D. Pedro I, por decreto imperial, transformou-a em cidade e capital da província com o nome de Ouro Preto. Perguntem ao governador Aécio Neves se ele aceitaria o ano de l823 como a idade da terra de Aleijadinho!  Se isto acontecesse ela só teria l85 anos, mas para os mineiros, aquele patrimônio cultural da humanidade  comemorou 3l0 anos, dia 24 de junho último.

Em se tratando de São Gotardo, é necessário o seguinte entendimento: sua soberania administrativa conquistada em l8/9/l9l4 e efetivada em 30/9/l9l5, foi, isto sim, uma grande escalada a mais nos degraus de uma  longa aventura épica de desbravamento no cerrado selvagem do centro oeste mineiro iniciada em 1836 quando, procedente da região de Carrancas, Sul de Minas, Joaquim Gothardo de Lima estabeleceu as bases do arraial da Confusão. Neste sentido, a data de 30 de setembro, já bastante próxima, deveria ser tratada como parte de um único e  inesquecível pacote festivo dos l72 anos de fundação da comunidade então com o nome de arraial da Confusão.

A propósito de tais considerações,  neste momento festivo dos 172 anos de existência da localidade e dos 94 anos de emancipação administrativa, consideramos ser de fundamental importância uma história de São Gotardo fundamentada nos fatos reais apurados até agora visando a criação de um roteiro geral não apenas para pesquisas, mas também de orientação escolar e preservação da memória do município.

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Não há, em nossa cidade, uma história de referência geral. Temos, na verdade, uma historiografia iniciada muito tarde com pouca documentação disponível para avaliação de um período já a caminho dos 200 anos. Em 1973, com a sábia e oportuna ajuda oficial  do então prefeito José Luiz Borges, foi possível ao professor, dentista e coletor federal José Gonçalves Ferreira, “Juquinha Carneiro”, editar sua singela mas importante “História de São Gotardo”.

Natural de Dores do Indaiá, Gonçalves Ferreira baseou-se muito mais na sua vivencia local (desde 1912) e nas informações a ele transmitidas por antigos moradores do que propriamente em documentação. Aponta Joaquim Gotardo como “pioneiro na formação do primitivo arraial e precursor de uma campanha patriótica na fundação das bases de uma florescente povoação”. Para ele, o atual topônimo foi uma homenagem a Joaquim Gotardo  e que a viúva do fundador, dona Mariana, a filha Coleta  e dois netos, residiram na vila até o ano de 1872 quando foram morar em Franca (SP).

Recentemente, em 2001, o médico José Pessoa lançou o livro “Raízes de São Gotardo”, cuja narrativa contradiz, frontalmente, a obra de Juquinha Carneiro precisamente no ponto considerado o pilar sagrado de sustentação da história local: a participação de Joaquim Gotardo.

Dizendo-se lastreado em análises de documentação e pesquisas “in loco”, Pessoa nega a Gotardo qualquer importância na formação da vila, afirmando: “ele viveu somente nove anos na região, não se ligou a ela, não permaneceu nela, não teve descendentes entre nós, nada representou no nosso palco, não deve ter tido influência pessoal, muito menos social. Não assinou a sua obra”. E ainda vai mais longe ao sustentar que “ Gotardo não teve filhos com sua esposa legítima Ignácia Cândida do Nascimento, e foram naturais seus três herdeiros Coleta, Maria e Urselino, nascidos de sua convivência com dona Mariana”.

Temos, portanto, um período recente de desenvolvimento econômico muito bem documentado, a partir da chegada dos agricultores  japoneses, mas quase nada sabemos sobre nossas verdadeiras raízes, situação pra lá de lamentável e fácil de ser canada pharmacy constatada nas contradições  dos livros acima referidos. Afinal, Joaquim Gotardo foi ou não o fundador de nossa cidade?


Com a palavra, o excelentíssimo Sr. prefeito Paulo Uejo, os dignos representantes da Câmara Municipal de vereadores e todo o corpo docente das instituições de ensino do município.

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