Quem tem  oportunidade de contemplar do topo da interminável montanha o leito atualmente  já bem reduzido do Indaiá, mas ainda de água límpida, cristalina e transparente, descendo espremido entre ladeiras, ribanceiras, precipícios e mil curvas, tal como se fosse uma serpente de cor esverdeada  em direção à Três Marias,  no  São Francisco, não pode imaginar a importância  deste rio, de apenas  226 quilômetros de extensão.

Importância não apenas por se tratar de  rio perene, de água sempre cristalina. No passado,  a fama de seus diamantes de pureza ofuscante e de grande valor no mercado, provocou  verdadeiras corridas  de aventureiros, na busca da fortuna fácil. O crime correu solto, assaltos, latrocínios e a lei sempre ficava do lado mais forte. Suas matas estavam “infestadas” de escravos fugidos que odiavam os brancos. Em apenas um só dia, 25 negros foram ali trucidados e outros 25 acorrentados pelas tropas do governo régio.

A partir de 1791 até o  primeiro  fechamento dos garimpos oficiais, em 1795,   o governo lusitano controlou com mão de ferro todo o trecho deste rio, determinando seu completo isolamento e proibindo  a entrada “de pedestres, paisanos e a massa miúda”. A ordem era atirar para matar em qualquer pessoa  que tentasse invadir  o distrito diamantino. Para o devido cumprimento do decreto, foram erguidos os seguintes postos militares: o Quartel da Cachoeirinha, próximo à nascente do rio e ao local atual do Posto Estalagem; o Quartel dos Ferreiros (hoje, Guarda dos Ferreiros);  o Quartel São João e o Quartel Geral do Indaiá.

Neste último (o principal), foi criado, em 1806, com a reabertura dos garimpos, uma administração central com um cofre para recolhimento dos  diamantes e sob cuja orientação 200 homens  escavavam e lavavam o cascalho, recebendo vergonhosos salários. O resultado não poderia ser outro: o extravio de brilhantes seria  gigantesco num  ambiente de  total cumplicidade entre  contrabandistas, militares e negros aquilombados cujas fortunas arrebanhadas de forma criminosa eram escoadas por trilhas completamentes desconhecidas pelo policiamento do governo régio.

 

 
2-O FABULOSO DIAMANTE ROUBADO POR UM  PADRE

O  grande   diamante “Abaeté”, que muitas pessoas acreditam  ter sido extraído do Rio Abaeté, foi uma descoberta ocorrida no  Indaiá. O escritor Carlos Cunha Correa, autor do livro “Serra da Saudade”, não tem a menor dúvida sobre isto. E explica que, naquela época, era tida oficialmente como “Região do Abaeté” toda a imensa área que abrangia a margem esquerda do São Francisco, passando pelo Rio Paracatu até divisa com Goiás e ainda pegando grande parte do Triângulo Mineiro. Como se vê, portanto, Indaiá e Abaeté faziam parte de um mesmo território.  Sem falar que, por este tempo, nem sequer  estava bem definido qual era mesmo o rio chamado Abaeté.

Para se ver como tudo ali  era visto como “Região do Abaeté”, Carlos Correa cita  dois exemplos inquestionáveis: no primeiro, o chefe do caixa central dos diamantes guardados no Quartel Geral do Indaiá, Diogo Pereira Ribeiro de Vasconcelos, recebeu, em 1806,  após o governo régio decidir pela  reabertura dos garimpos, a nomeação de “Caixa do Novo Distrito de Abaeté e Lorena”, título sugestivo de  uma generalização para todo o território dos dois rios.  No segundo, ele cita o viajante francês Auguste Saint Hilare   que viu   a  Serra da Mata da Corda como uma formação de  montes cercados  de  bosques entre ambos os Abaeté.”

E como se isto não bastasse, o alferes Manuel Gomes Batista, pai do menino Antônio que encontrou o diamante, no ano de 1796, logo após a primeira decisão do governo de interromper  extração  ( por falta de verbas), era dono da fazenda Gerais distante do Rio Indaiá somente 20 quilômetros. Não é de se acreditar que ele deixasse os afazeres de  sua propriedade, junto com o filho de 15 anos, para garimpar no outro Abaeté  localizado a quase 100 quilômetros.

Não constituiria surpresa nenhuma a confirmação de que a descoberta deste famoso diamante tenha ocorrido na baixada ali bem pertinho da ponte de concreto que liga São Gotardo a Dores do Indaiá, trecho Gordura Quartel São João. A referida baixada, já em terras Dorenses, onde o rio faz uma curva em forma de  ferradura, pelas deduções  do escritor Carlos Correa, não ficaria longe da fazenda Gerais, de Manuel Gomes. A curva da ferradura foi local de garimpo, durante mais de 150 anos. E neste lugar, segundo moradores antigos, extraia-se até um litro de xibius por dia. Xibiu era o pequeno diamante utilizado no instrumento de cortar vidro.

Em qualquer lugar do mundo seria simplesmente impossível guardar segredo sobre uma pedra tão valiosa, do tamanho de um ovo, que “o reino não tinha dinheiro suficiente pra  comprar”. Em pouco tempo, a notícia chegou aos ouvidos do desonesto padre Anastácio Gonçalves Pimentel, de Pitangui, que decidiu dela se apoderar. Com ajuda de outras pessoas e usando de todos os tipos de pressão inclusive o argumento de que   o brilhante foi encontrado em área exclusivamente do governo, Anastácio tomou a pedra do alferes Manuel Gomes, viajando em seguida para Lisboa na expectativa de ficar com a glória  e o prêmio pela descoberta,   títulos e outros beneplácitos da Coroa.

Inconformado, Gomes Batista também seguiu para  o Rio de Janeiro e lá permaneceu, vários meses, vendendo quinquilharias na praia até juntar o dinheiro da passagem para Portugal. Na capital lusitana, queixou-se ao primeiro-ministro que, acreditando na sua sinceridade, reconheceu oficialmente ser ele o legítimo descobridor do diamante.  Como recompensa recebeu uma remuneração de um conto de reis e ainda a nomeação  de intendente de uma fundição em  Sabará. O padre Anastácio viria a falecer, em Pitangui, de forma obscura e com a pecha de traidor e ladrão.

 
3-MILITARES, OS MAIORES CONTRABANDISTAS

Não se pense que o militar-fazendeiro Manuel Gomes era um santo. Na verdade, tratou-se de um dos maiores contrabandistas no  vasto território  “dos Abaetés” que   só encerrou ou disfarçou   sua atividade criminosa  a partir da nomeação para o cargo de intendente em Sabará. Antes de comprar a fazenda Gerais, por volta de 1790,  já se encontrava na região, há vários anos, praticando o “mercado negro” com os aquilombados nas matas do Indaiá. Fornecia  roupas, provisões, ferramentas e outras utilidades, recebendo, como pagamento,  as pedras preciosas.

Em 1795, o governador da Capitania de Minas determinou a paralisação da extração oficial, por falta de dinheiro, deixando no Quartel Geral do Indaiá apenas a guarda necessária para “evitar a invasão de pedestres, paisanos, particulares e a massa miúda”. Mas em 1800,  com a  notícia promissora  do fabuloso diamante “Abaeté”, novas pesquisas foram  realizadas. Lavrado o resultado positivo resultante das informações técnicas  de outro militar contrabandista, o capitão Isidoro d’Amorim Pereira, do Regimento dos homens Pardos, intitulado o “satanás dos contrabandistas” –  mas a quem se deu a função de  “guia e diretor de todos os serviços” –  o distrito diamantino seria novamente aberto. Mesmo assim, como sempre foi o estilo lusitano de governar, somente  no dia  15 de julho de 1807, seis anos depois,  as atividades foram  iniciadas, mas durou pouco.  Neste espaço de tempo, muito extravio de pedras deve ter ocorrido com a total participação dos militares.

No dia  13 de outubro de 1807 o governador  Pedro Maria Xavier de Ataíde mandava encerrar, definitivamente, a extração régia no distrito diamantino do Indaiá e Abaeté. O motivo? Falta  constante de  numerários para custear as atividades, apesar de se encontrar o quartel, com seus 200 homens,  edificado quase  ao lado de verdadeiros tesouros. Uma  guarda militar foi deixada para “evitar invasões da massa miúda” e o chefe do Caixa do Novo Distrito de Abaeté ou Lorena, Diogo Ribeiro Pereira de Vasconcelos, avô do escritor Diogo de Vasconcelos,  só permaneceu lá o tempo suficiente para  solucionar problemas burocráticos. Quando finalmente partiu para Ouro Preto levou um embrulho com 695 brilhantes extraídos no distrito diamantino com um peso total de 22 oitavas e meia.

 
A  recente foto acima é de uma das famílias mais antigasda beira do Rio Indaiá, cujo patriarca sr. Antônio Cunha, já falecido, se tornou uma lenda na região do Quartel São João, Quartel Geral e Dores do Indaiá. Dona Luzia, a viuva, tem muita saude e mora na cidade de Dores onde, com muita festa, sempre recebe suas seis filhas: na frente da fotografia estão Veneranda, Marcina (sempre bonita), Maria e Onésia. No fundo, Aparecida, dona Luzia e Vitória. "Toezinho Cunha" ou "Antõe Cunha", como era mais conhecido, contava casos maravilhosos de surubins e dourados gigantes pescados no Indaiá, além de afirmar que grandes fortunas, em diamantes, foram tiradas, da noite para o dia, nas barrancas e leito do rio. Ele tinha sempre  um canudinho de bambu  cheio de pedras de boa qualidade que fazia questão de mostrar  às pessoas de sua confiança. No início,  morou numa fazenda à margem esquerda do Indaiá, no lado são-gotardense. Porteriormente, transferiu-se para a propriedade situada  na baixada da "curva da ferradura", margem direita do rio, já no município de Dores, e cujo terreno foi local de garimpo durante mais de 150 anos.
A  recente foto acima é de uma das famílias mais antigasda beira do Rio Indaiá, cujo patriarca sr. Antônio Cunha, já falecido, se tornou uma lenda na região do Quartel São João, Quartel Geral e Dores do Indaiá. Dona Luzia, a viuva, tem muita saude e mora na cidade de Dores onde, com muita festa, sempre recebe suas seis filhas: na frente da fotografia estão Veneranda, Marcina (sempre bonita), Maria e Onésia. No fundo, Aparecida, dona Luzia e Vitória. “Toezinho Cunha” ou “Antõe Cunha”, como era mais conhecido, contava casos maravilhosos de surubins e dourados gigantes pescados no Indaiá, além de afirmar que grandes fortunas, em diamantes, foram tiradas, da noite para o dia, nas barrancas e leito do rio. Ele tinha sempre  um canudinho de bambu  cheio de pedras de boa qualidade que fazia questão de mostrar  às pessoas de sua confiança. No início,  morou numa fazenda à margem esquerda do Indaiá, no lado são-gotardense. Porteriormente, transferiu-se para a propriedade situada  na baixada da “curva da ferradura”, margem direita do rio, já no município de Dores, e cujo terreno foi local de garimpo durante mais de 150 anos.
Deste dia em diante, sob o olhar complacente e de cumplicidade da referida guarda militar lá deixada para coibir as invasões,  reativou-se a prática do contrabando e as margens do Indaiá e Abaeté foram invadidas como nunca se viu até então naquela região também batizada,  por um período muito curto, de “Nova Lorena”, em homenagem ao governador  anterior Bernardo José de Lorena. No dia 16 de agosto de  1823, o comandante do Quartel Geral, certamente querendo justificar sua participação disfarçada nos extravios,   escrevia carta  informando que não tinha meios de propecia young men impedir os descaminhos de pedras preciosas  e nem podia resistir a invasão  de 300 pessoas  entrando no rio através de picadas e canoas..

4-NEGROS AQUILOMBADOS, O TERROR DOS FAZENDEIROS

No ano de 1737,  após a abertura da Picada de Goiás  –   trechos de Aiuruoca a Pitangui e de Pitangui rumo a  Paracatu  –  esperava-se um movimento intenso de comércio e povoação nas várias fazendas situadas à margem esquerda do Rio São Francisco até o Rio São Marcos, divisa com Goiás. Era do interesse régio a ligação direta de Minas e Goiás com o Rio de Janeiro, isolando-se a influência de São Paulo através do  caminho velho, facilitando a cobrança dos impostos. Mas nada disto estava sendo possível por causa do terror implantado pelos  inúmeros quilombos estabelecidos, estrategicamente, além da Serra da Saudade, cabeceira do Rio Paranaíba e margens do Rio Indaiá.  Os fazendeiros tinham muito  mais receio dos negros aquilombados  que  propriamente dos  índios “Araxás”, também  senhores absolutos do território entre os rios “Quebra-Anzol” e das “Abelhas” de onde faziam incursões até Campos Altos, repelindo quaisquer invasões de brancos.

O pavor dos fazendeiros  era mesmo  os inúmeros quilombos bem estabelecidos, estrategicamente, além da Serra da Saudade, cabeceiras do Rio Paranaíba e margens do Rio Indaiá. Foragidos das fazendas para se libertarem de trabalhos e castigos desumanos, os negros levavam, como seu maior cacife, a experiência da convivência com os brancos. E  entrincheirados  perto de estradas e povoados, lutavam em igualdade de condições contra  autoridades e fazendeiros, empregando inclusive armas de fogo adquiridas juntamente com roupas e provisões nas vilas em troca de diamantes, ouro, peles, etc. Matavam sem pestanejar. A conseqüência generalizada foi a completa paralisação, para não dizer decadência,  do povoamento e das  atividades econômicas no Centro-Oeste. Os negros  tinham a proteção dos próprios moradores das vilas que estavam sempre de olho nas riquezas por eles levadas e facilmente negociadas.

Bem coladinho a  São Gotardo, ali perto de Poções, o povoado Quilombo recebeu este nome por se tratar de refúgio de escravos. E quem nunca ouvir falar do famoso Quilombo do Ambrósio, também pertinho, um dos maiores da colônia  e onde se concentravam milhares de escravos fugidos?

Os negros que nada produziam eram perigosíssimos. Para se abastecerem de tudo aquilo que necessitavam, assaltavam viajantes, caravanas, fazendas e povoados, destruindo, incendiando e matando quem resistisse.

O governador interino da Capitania de Minas, José Antônio Freire de Andrade, irmão do titular Gomes Freire de Andrade, por ofício de 1º de março de 1757, designou o capitão-mor Bartolomeu Bueno do Prado, sobrinho do famoso Anhanguera, para comandar um destacamento de 400 combatentes, equipados em Pitangui, com a finalidade de livrar, de uma vez por todas, e por todos os meios possíveis,  a região “infestada”  de “negros fugidos”. Agindo também sem  nenhuma complacência, Bueno do Prado, durante meses a fio, foi destruindo um a um, todos os quilombos localizados  às margens do Rio Indaiá, Serra da Saudade, Córrego Danta, Ibiá e Rio Paranaíba.

Sobre a mortandade de negros, o próprio governador José Freire, em carta aos representantes da Câmara do Serro, assim escreve: “no dia 16 de setembro deste ano de 1759, o capitão-mor Bartolomeu Bueno do Prado, com seu destacamento de 400 homens, matou 25 quilombolas à beira do Rio Indaiá, fazendo ainda mais 20 prisioneiros, e que, além da Serra da Saudade, atacou outro quilombo e acorrentou outros 49 negros”.


5-AS TRILHAS QUE FIZERAM A HISTÓRIA DE SÃO GOTARDO

De fato, a intervenção militar sob o comando de Bartolomeu Bueno erradicou de vez o perigo representado pela ação dos quilombolas e índios “Araxás” às margens da Picada de Goiás, proporcionando paz e segurança na difícil jornada de  ocupação do   Centro-Oeste. Mas muito antes desta  grande picada iniciada em Pitangui,  passando por Bom Despacho, Piraquara (São Francisco) Rancho da Boa Vista (Dores do Indaiá), Serra da Saudade, Rio Indaiá, Guarda dos Ferreiros, São Francisco das Chagas do Campo Grande (Rio Paraniba), serra das Almas, Guarda-Mór e Paracatu/Goiás, o sertão bravio do território mineiro já fervilhava de “trilhas particulares” (não oficializadas pelo governo régio), por onde a multidão ia e vinha, quase sempre na surdina,  uns na tentativa de descobrir novas minas de ouro, outros contrabandeando ou mascateando.

E neste vai e vem,  provavelmente a partir de 1719,  foi sendo demarcada  a trilha informal  perto da  qual surgiriam mais tarde o Rancho da Boa Vista (Dores do Indaiá), Santo Antônio dos Tiros (Tiros) e arraial da Confusão (São Gotardo). E qual seria o traçado desta trilha também iniciada  a partir de Pitangui? O escritor Carlos Cunha Correa não tem dúvidas de dizer que ela era a mesma do trecho da Picada de Goiás até as proximidades da Serra da Saudade. Depois descia pela serra até ao Quartel de São João, atravessava o Rio Indaiá e rumava para os serros da Fragata, Nau de Guerra, margeando o Ribeirão dos Tiros, da Galena (hoje Chumbo), e atingia o Paracatu.

Ora, o Quartel São João fica a menos de cinco quilômetros  do Rio Indaiá. Isto quer dizer que o roteiro do viajante era o mesmo onde está, hoje,  a   ponte  de concreto que  liga São Gotardo a Dores. A travessia ficava a cerca de 400 metros acima  numa corredeira  que, no período da seca, é facilmente superada.

Ex-moradores antigos da beira do rio, com idade entre 80 e 90 anos, contam que este caminho já era profundamente sulcado, com barrancos altos, desde tempos imemoriais em decorrência do intenso ir e vir de caravanas, cavaleiros, tropeiros, carros de boi e muita passagem de grandes levas de gado. Bem  demarcada sobre gigantescos maciços  de “toazeiro verde”, de fácil fragmentação ao contato com a roda do carro de boi, do casco do cavalo e da boiada, a referida trilha, após mais de dois séculos como rota ininterrupta, foi cavando sua  passagem ao fundo do solo de cor esverdeada, fato que pode ser comprovado desde o Quartel Geral até a entrada do Gordura e depois por toda a zona do “Grotão”

Transposto o Indaiá, dá-se  inicio a uma longa e árdua subida serra acima, tendo o Córrego Fundo à direita, cercado de ladeiras, até chegar à Vila do Gordura (Vila Funchal).  Após o Gordura, bem ao pé da Serra da Mata da Corda, o viajante tinha o seguinte roteiro: em linha reta, subindo a serra, o caminho para São José das Perobas que também dava no Sapecado.  À direita, paralelo às  fazendas de Gabrielinho e dos herdeiros de Antônio de Melo, pegava-se a trilha que passava ao lado dos serros Fragata, Nau de guerra, ribeirão dos Tiros  e  Paracatu.

Pelo lado esquerdo, adentrando as terras dos herdeiros do sr. Luittprant de Melo,  ao lado da  Serra da Mata da Corda quase de frente à propriedade de Tarcisio Melo  –  e  onde uma estupenda mina de água brota ruidosa da “barriga da montanha” entre raízes de uma veterana gameleira  –  o transeunte segue em direção ao Sapecado cortando a trilha  secularmente sulcada do Grotão. Antes da fazenda de José Rodrigues, pai da conceituada educadora  e ex-vereadora Vilma Rodrigues, sobe-se novamente a serra e em pouco tempo surge o  Sapecado. Deste local, a próxima parada é o Quartel dos Ferreiros, hoje, Guarda dos Ferreiros, roteiro então em  trecho de grande abundância de minas de água e ribeirões. Aí se tomava  novamente a Picada de Goiás em direção a Guarda-Mor/Paracatu ou a trilha em direção ao Sertão da Farinha Podre ( Triângulo Mineiro).

Como se vê, a cidade de São  Gotardo, que  ainda hoje continua erguida sobre os mesmos alicerces de sua fundação ocorrida  no ano de 1836 com o nome de Arraial da Confusão, está situada numa região de grande importância histórica bem no centro do antigo caminho de ligação entre o Rio de Janeiro e a fronteira de Goiás. Este ano, o município vai completar 173 anos de existência, mas  as autoridades locais  parecem ter vergonha de dizer que esta importante localidade já é uma senhora bem vivida, com muita experiência e muito próxima  dos 200 anos de idade.

Preferem comemorar, todos os anos, no dia 30 de setembro, apenas a emancipação político-administrativa ocorrida em 1914/15, engolindo 78 anos de história, como se  fosse o aniversário de sua própria fundação,  esquecendo suas origens, sua cultura, suas tradições e,  enfim,  uma atitude quase de menosprezo à memória daqueles que fizeram a grandeza do município. Espera-se que o novo prefeito do município, Edson Cesário de Oliveira, não repita os mesmos equívocos e erros praticados por ex-colegas de mente tacanha.

 

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