Velho conhecedor do jogo pesado, nem sempre limpo,  que se pratica por trás dos panos, no Congresso Nacional, quando o assunto é cumprir determinações emanadas da cúpula presidencial,  o articulista  Geraldo Mora mostra aqui, no Centroeste Urgente, em sua coluna de hoje,  que Dilma Roussef, apesar de contar com a certeza de absoluta vitória quando a questão do salário mínimo for transferida para o Senado, continuará usando do rolo compressor para sufocar  até mesmos rebeldias brotadas no interior do PT e partidos aliados. Quem votar contra vai ter de passar  a pão e água.  Aécio Neves tenta reunir os cacos do PSDB e diz que o novo Governo já começa ditando ordens no Congresso, o que não é bom para a democracia.

SALÁRIO MÍNIMO: JOGO CONTINUARÁ PESADO

Um governo que assume dando ordens ao Congresso não é bom para a democracia, alertou o senador Aécio Neves, dois dias após a vitória do Palácio do Planalto na aprovação do salário mínimo de R$ 545, pela Câmara. O resultado da pressão do Palácio do Planalto foi uma acachapante vitória de Dilma.

Aécio começa a despontar como o principal líder da oposição, mas não conseguiu ainda unir seu partido, o PSDB, que perdeu as bandeiras que o marcaram desde o nascimento, tão logo se viu na oposição. Os tucanos ficam divididos em relação a valores do salário mínimo, acima do que o governo queria.

O ex-governador de Minas defendeu R$ 560, numa jogada para se aproximar das centrais sindicais, sempre até aqui um reduto do PT. O grupo do Serra trabalhou pelo valor de R$ 600, como definiu o governo de São Paulo para valer em todo o estado.

O Palácio do Planalto reforçou a estratégia a ser empregada no Senado, onde o assunto aterrissa nos próximos dias: manter exatamente o que foi aprovado na Câmara. O senador do PT do Rio Grande do Sul, Paulo Paim, fala em apresentar proposta com o valor de R$ 560.

O governo escalou seu líder no Senado, o pernambucano eleito pelo PMDB de Roraima, Romero Jucá, para ser o relator da matéria, ou seja, aquele que vai propor ao plenário da Casa exatamente o que interessa a Dilma.

O governo está de olho em Paim, e já foi lembrado a ele o empenho feito pela sua reeleição em outubro do ano passado, quando teve a vaga ameaçada por Germano Rigotto (PMDB) e por Ana Amélia (PP). O jogo de forças no Senado não é o mesmo da última legislatura, quando o governo Lula viu enterrada a tentativa de aprovar a prorrogação da CPMF. Surpresas ficam mais difíceis agora.

Na Câmara as consequências dos resultados do êxito obtido pelo governo começam aparecer. A bancada do PMDB do Rio, capitaneada pelo deputado Eduardo Cunha, que perdeu a hereditariedade em Furnas dois dias antes da votação na Câmara, apresenta sua fatura: uma lista de 19 nomes que quer ver acomodados no governo.

E o ministro do Trabalho, dirigente do PDT, Carlos Lupi, cuja bancada votou dividida na proposta defendida pelo Palácio do Planalto, afirma não ser “inteligente” o governo retaliar o partido. Dilma avisou que o PDT será tratado a pão e água.

E quem diria, o palhaço Tiririca votou pelo salário de R$ 600, contra a orientação de seu partido (PR) e contra o governo. Será que ele conseguiu ler as orientações de como operar a urna digital instalada frente à sua cadeira no plenário da Câmara?

(Geraldo Moura – jornalista formado pela UFMG em 1973, com passagens pelo Diário de Minas e O Globo, em Belo Horizonte; O Globo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, em Brasília. Integrou a equipe do ex-ministro da Fazenda e ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, entre 1993 e 2002).

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