As máquinas entrando lentamente na Vila Funchal

Em matéria exclusiva, o Centroeste Urgente publica fotos dos incríveis caminhões “vibroseis” recebidos, festivamente, dia 15 último, em Vila Funchal, distrito de São Gotardo, no Alto Paranaíba, que viveu momentos históricos para nunca mais serem esquecidos. Nestas poderosas máquinas estão instalados os equipamentos de última geração capazes de detectar, por meio de abalos sísmicos, sinais de petróleo e gás, a grandes profundidades.

Por outro lado, as pesquisas na região vão prosseguir, daqui para frente, sem riscos de serem embargadas, judicialmente. Já de olho nos trabalhos futuros, representantes das empresas Petra Energias, detentora das concessões junto ao Governo Federal, e a Gheofysical Global Service, encarregada das prospecções, firmaram acordo junto à associação dos moradores e produtores de Vila Funchal, visando preservação de todo o acervo histórico urbano local de possíveis danos ambientais.

Durante a reunião, as firmas apresentaram os documentos referentes aos levantamentos científicos e assumiram importantes obras de recuperação do trecho vicinal ligando a ponte do Rio Indaiá até o trevo do Sapecado, totalmente abandonado pelo prefeito de São Gotardo, Edson Cezário de Oliveira.

Um dia que entrou para a história da vila

Neste mesmo dia 15, a frota de máquinas vibroseis, após alcançar a região do antigo lugarejo conhecido por Sapecado, ainda município de São Gotardo, tomou a direção do Córrego Funchal e de Serra da Saudade, completando um grande círculo de pesquisas que tem como base central a cidade de Dores do Indaiá. Trata-se da primeira etapa de uma série de cinco. Desta, consistida em testes por meio de abalos sísmicos a cada 25 metros, vão depender as demais (Atenção: este site permite ampliação de fotos. Clique sobre elas). /centroesteurgente@hotmail.com/

EXPECTATIVA MUITO GRANDE DE DESCOBERTAS

Sem acreditar nas visões que aos poucos tomavam formas agigantadas em plena praça, os pouco moradores de Vila Funchal, atualmente em torno de 150 (já foram seis mil), assistiam estupefatos e boquiabertos, a chegada daqueles cinco incríveis veículos semelhantes a maquinários de guerra, capazes de localizar jazidas de petróleo e gás em profundidades de até sete mil metros. Cada um desses caminhões equipados com pneus de um metro de largura tem custo unitário de cinco milhões de dólares, valendo assim dizer que ali naqueles maciços protegidos pelas serras da Mata da Corda e Saudade, entre São Gotardo e Dores do Indaiá, circulava uma frota equipada com sofisticada tecnologia de última geração estimada em US$ 25 milhões.

Deduz-se, em função de tão consideráveis valores empatados, a explicação lógica de que toda a área do verdete, no Eixo-Indaiá, compreendendo pelo menos oito das onze cidades lá localizadas, coisa de uns 300 km², gera boas expectativas de bem-sucedidas descobertas. Nenhuma empresa assumiria projetos tresloucados a ponto de levar àquela isolada região de difícil acesso equipamentos de custos fabulosos, difíceis de serem transportados, engenheiros, geólogos, geofísicos e até advogados, além de quase 500 trabalhadores distribuídos em casas alugadas e hotéis espalhados por Dores do Indaiá, São Gotardo e Abaeté, caso não tivessem indícios de resultados positivos.

Toda a operação foi precedida de longos, cansativos e detalhados levantamentos executados no solo e por via aérea, durante meses a fio, não se podendo esquecer que, em Morada Nova, no trecho do próprio Indaiá, não muito distante, em terreno de formação geológica semelhante, já se tem confirmação da existência de gás.

Na pequena Vila Funchal – resumida a um pequeno acervo de humildes casas históricas protegidas por lei municipal de tombamento, em torno de uma praça onde se acha também a pequena igrejinha de parede esverdeada – seus 150 moradores, muitos deles donos de terra nas cercanias, assistiam, incrédulos, a movimentação daqueles super caminhões, os afamados “vibroseis”.

Também conhecidos por caminhões vibradores, neles estão instalados os sofisticados equipamentos provocadores dos abalos sísmicos nas profundidades subterrâneas capazes de sinalizar existência de gás e petróleo. Vistos de longe, mais pareciam máquinas de guerra entrando lentamente no lugarejo a uma velocidade de 25 km.

Embora tecnicamente desenvolvidos para circular em terrenos acidentados – são capazes de superar trechos de barrancos altos – não foi nada fácil a chegada deles até a vila. São veículos muito pesados e largos, necessários de se fazerem acompanhados de escolta, quase impossíveis de serem comportados em estreitas pistas vicinais onde as divisas de fazendas são marcadas por frágeis mata-burros que não poderiam suportar o peso desses monstrengos estimados em mais de 20 mil quilos. A solução foi lançar pequenas pontes móveis de aço sobre os mata-burros, sem as quais eles seriam completamente danificados. Até pedaços de cerca de arame, em volta, tiveram de ser cortadas, bem como retirada de estacas.

REUNIÃO PARA ACORDO DEVOLVEU TRANQUILIDADE

Em decorrência dos riscos iminentes de danos ao meio ambiente e ao pequeno acervo de casas de Vila Funchal, representantes da Petra Energias, concessionária dos direitos de pesquisa, e Gheofysical Service, encarregada dos levantamentos científicos, se reuniram com o presidente e a vice da Associação dos Moradores locais, que engloba cerca de 70 produtores, respectivamente, Vinicius de Carvalho e sua mãe Leninha de Carvalho (ela é também advogada e ambientalista), quando estas empresas assumiram compromisso de recuperar todo o trecho da estrada ligando a ponte do Rio Indaiá até o Sapecado, completamente abandonado , há vários meses, pelo prefeito Edson Cezário de Oliveira.

Outra decisão importante tomada pelas duas empresas, por solicitação de Vinicus e sua mãe Leninha de Carvalho, em clima de alto nível e pleno entendimento, foi determinar que os equipamentos dos caminhões vibradores fossem acionados somente a uma distância mínima de 300 metros da vila. Sabe-se que o efeito vibrador destas poderosas máquinas pode, em instantes, derrubar uma casa. Nos terrenos onde se desenvolvem projetos de abalos sísmicos provocados por esta portentosa tecnologia ocorrem afundamentos e até grandes rachaduras. Assim, a vila foi poupada de possíveis danos, servindo apenas de passagem dos veículos, pelo fato de não existir outra opção.

Todos os acordos foram firmados na sede da fazenda de dona Leninha Carvalho e seu filho Vinicius, estando presentes cerca de vinte representantes das firmas Petra Energias e Gheofysical Service quando também foram apresentados todos os documentos legais de responsabilidade delas, solicitados pela associação dos moradores. Só não esteve presente o prefeito de São Gotardo que não se importou de ficar ausente nem mesmo diante das advertências de perigos iminentes ( O ensino básico de Vila Funchal está dividido entre o Estado e o município. A parte sob a responsabilidade do prefeito se encontra totalmente abandonada e paralisada, por falta de professores, desde o início do ano letivo). O compromisso de patrolar a estrada foi decidido em documento assinado, entre associação e empresas, mas, mesmo assim, o prefeito de São Gotardo, muito desgastado no município, faz questão de dizer que a obra é iniciativa de suas negociações. O que é mentira.

Acontecimento tão importante assim na história da vila só teve similar em outras situações ocorridas nos anos 50 do século passado quando um espigão próximo, bem de frente, se transformou em rotineiro aeroporto improvisado de um “Teco-Teco”, do famoso aviador e fazendeiro Raimundo Mendes, o “Mundinho”. Entre perigosas colunas de gigantescas macaúbas, o avião de Mundinho descia meio desequilibrado, chacoalhado que chegava pela força do vento soprando da Mata da Corda, causando medo generalizado na vila até mesmo de ele se enroscar nas folhas espinhentas de entrelaçadas moitas desses coqueiros ou se espatifar contra o paredão da serra.

O clarão provocado pelo reflexo do sol na fuselagem prateada da aeronave deslizando perigosamente entre colunas de macaúbas criava um clima de impressionante suspense e mistério como se tal máquina fosse coisa de outro mundo. O pouso, naquele terreno de formação “bambuí” e “canastra”, com idade superior a um bilhão de anos, era feito em aclive rumo ao pé da serra. Ao retornar taxiando lentamente em direção a uma numerosa e ruidosa platéia, o vaidoso piloto conhecido por suas famosas estripulias no ar, sempre vestindo camisa impecavelmente branca e o indefectível óculo escuro Ray ban, era recebido e festejado aos gritos, como verdadeiro e destemido herói.

Vivia-se então próspero e efervescente período de riqueza gerada pela cafeicultura plantada exatamente sobre os maciços onde se realizam agora pesquisas visando descoberta de petróleo, gás, potássio e outros minerais preciosos. Naquela histórica fase, cerca de seis mil pessoas moravam em Vila Funchal e cercanias. A partir de 1960 houve uma quebradeira generalizada no setor cafeeiro, iniciando-se fatídico êxodo rural, afetando todos os municípios do verdete. A pequena localidade, mais popularmente conhecida por “Gordura”, em rápida escalada, viu sua população ser reduzida até chegar aos atuais 150 moradores, cinco décadas após ter sido erradicado o último pé de café no terreno rochoso.

Agora, diante da comoção provocada pela entrada na vila dos gigantescos caminhões vibroseis, renasce com força, em toda a região do verdete, a esperança de se espantar, de vez, o fantasma da estagnação econômica.

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