Jornalista Geraldo Mora

Contumazes dilapidadores dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios, a maioria  em situação de falência, os quase 5.570 prefeitos brasileiros tremem de medo, como ocorre agora, quando se debate no Congresso Nacional as novas bases do salário mínimo. É para falar sobre esse assunto de extrema importância, que envolve pressões políticas de todos os lados e poderosos interesses sindicalistas  patronais e trabalhistas, que o Centroeste Urgente traz, hoje, aos seus leitores, o veterano jornalista mineiro, Geraldo Mora, atualmente residindo em Goiás, de prestígio rígida e disciplinarmente construído ao longos de décadas  nas redações dos jornais  O Globo, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo, além de ter sido integrante da equipe do ex-ministro da Fazenda e ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso. Outra questão de suma gravidade abordada pelo conceituado articulista é a votação do projeto de reforma do Código Florestal, previsto para março.

SALÁRIO MÍNIMO: A SEGUNDA VITÓRIA DE DILMA

A “presidenta” Dilma (como ela gosta de ser chamada) conseguiu apoio de 100% do PMDB na aprovação do novo valor do salário mínimo (R$ 545,00). Mas não obteve o mesmo resultado da parte do PT, partido a que pertence – dois deputados votaram contra, nem da legenda pela qual entrou na vida política, o PDT (oito foram contra a proposta do governo).

O que acontecerá aos dois petistas rebeldes (um do Amazonas e outro do Ceará)? O PDT será tratado a pão e água e poderá perder cargos no governo. O PMDB votou em peso com o governo, mas a bancada do Rio perdeu o comando de Furnas um dia antes da votação do salário mínimo. Em algum momento, a vingança virá.

A vitória foi acachapante, decidida pelo voto simbólico (sem necessidade de cada deputado se expor publicamente ao votar). Mais do que isso: até 2015, ou seja, nos próximos três anos do mandato de Dilma e no primeiro de seu sucessor, o governo estará livre de enfrentar o mesmo drama por ocasião do reajuste do salário mínimo.

Bastará um decreto presidencial fixando o valor de acordo com a regra que também foi aprovada na noite de quarta-feira (16.02): o INPC mais a soma do PIB dos dois anos anteriores. Isso evita desgaste com o Congresso e com as centrais sindicais. Continuará a pressão dos aposentados do INSS.

Lula teve papel destacado no processo, apesar do valor do salário mínimo ter ficado acima do que ele havia proposto. Em Dakar, onde participava de um fórum, ele deu uma entrevista chamando os sindicalistas que defendiam valor de R$ 460 e R$ 480 de oportunistas. Quando na oposição, ele costumava fazer a mesma coisa, sob a justificativa de que a luta era por “menas perca”.

De todo modo, foi a segunda vitória de Dilma, em menos de dois meses de mandato. A primeira ocorreu com a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado. Havia um acordo entre os dois maiores partidos do Congresso em torno de um esquema de revezamento, mas nunca é demais lembrar o que ocorreu em 2005 com a eleição do pernambucano Severino Cavalcanti (PP). Sempre há risco do exemplo de rebeldia se repetir.

O próximo capítulo, previsto para março, é a votação do projeto de reforma do Código Florestal, assunto extremamente polêmico, fortemente dominado por emoções. A ministra do Meio Ambiente, Isabel Teixeira avisou que pontos constantes do projeto que está pronto para ir ao Plenário da Câmara, com aval dos deputados ligados à agricultura, não contam com aval do governo.

O ministério do Meio Ambiente prepara outro projeto eliminando esses pontos, como a anistia concedida a quem desmatou irregularmente. O projeto elaborado com base no parecer de um deputado que pertence ao Partido Comunista (PCdoB), Aldo Rebelo (SP), conta com total apoio da bancada ligada ao setor rural – e que veio mais fortalecida para esta legislatura.

Lembre-se que Dilma foi derrotada nas regiões agrícolas e o próprio PT criou um grupo para analisar a questão sob a ótica do governo. Ambientalistas se articulam também para barrar a votação do projeto em março, apesar da promessa do presidente da Câmara de pôr o assunto em votação.

(Geraldo Moura – jornalista formado pela UFMG em 1973, com passagens pelo Diário de Minas e O Globo, em Belo Horizonte; O Globo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo, em Brasília. Integrou a equipe do ex-ministro da Fazenda e ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, entre 1993 e 2002).

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