“A título de comparação com exemplos de situações contemporâneas também chocantes, sugerimos aos 113 intelectuais, sindicalistas, empresários e artistas contrários ao sistema de cotas para ingresso de negros nas universidades, uma longa viagem ao passado, em nossa humilde companhia, com o fim de nos determos exatamente no privilegiado período de permanência  da família real no Brasil, entre 1808 e 1821.

Naquela época, a cidade do Rio de Janeiro, oportuna e casuisticamente elevada à condição de capital do claudicante império lusitano, ocupava a posição de maior praça do tráfico negreiro das Américas, sem termos de equivalência. E era lá que funcionava, a todo o vapor, o monstruoso e macabro mercado de escravos do bairro Valongo, uma verdadeira casa de horrores nos mesmos moldes da não menos insólita fortaleza de São Jorge da Mina, fundada em 1481, na costa da África.

O Valongo  –  um complexo de armazéns enfileirados um de frente para o outro, semelhante aos modernos presídios, com todas as unidades  reforçadas por grossas grades de ferro  –  era o centro de operações onde os navios negreiros, os trágicos  “tumbeiros”, descarregavam suas “cargas” semimortas a fim de serem “armazenadas” e “recuperadas” enquanto se aguardava a batida do martelo nos leilões.

Ali mesmo, amontoados atrás das grades para quem quisesse ver, e na mais completa nudez, homens, mulheres e crianças, tratados como animais,  morriam  aos milhares, vítimas da violência e desnutrição, e eram enterrados no cemitério do pátio interno, enfileirados em fossas, ao comprido, para economizar o tão necessário espaço.

Pois muito bem. O presente preâmbulo tem a finalidade de ilustrar aos 113 signatários  da carta aberta contra as cotas para os negros sob o argumento  de discriminação contra outras classes, que um número horripilante e infinito de “valongos” ainda pululam por este imenso país a fora representados cheapest generic propecia na iniqüidade dos distritos policiais e complexos penitenciários  equipados com celas reduzidas, tal como jaulas, em cujo interior os detentos, na sua maioria afro-descendentes, têm mínimas chances de reintegração social, espremidos nas grades em meio ao excesso de população carcerária e ali coexistindo em condições também de “mercadoria  armazenada”.

A bem da verdade, os descendentes dos povos africanos, historicamente responsáveis pela construção deste imenso país em lenta agonia de 350 anos como alvos da mais brutal violação dos direitos humanos, continuam recebendo o mesmo tratamento de rejeitados  da nação, sob o olhar da fria indiferença das políticas públicas, ao passo que os judeus, após o término do conflito mundial  no qual também foram vítimas de  discriminação, preconceitos e crimes hediondos em todas as suas faces, conseguiram fincar raízes no solo de uma pátria verdadeira e dela fazer parte, de fato e de direito, lutando bravamente por cada metro do chão duramente conquistado. E fica aqui uma pergunta:  teriam os nossos irmãos de origem africana alguma motivação para lutar e morrer por este país?

Durante séculos, tal como agora ainda está ocorrendo, enquanto se arrastavam os horrores e arbitrariedades normalmente fora de controle quando um homem exerce o direito de posse sobre outro, muita coisa foi escrita,  mil poemas nasceram  inspirados na escravidão, muitos foram os discursos,  mas quase tudo isso no funesto exercício de se procrastinar. Sempre procrastinar! Pressões anti-escravistas com ações de impacto só vieram da Inglaterra, eternamente preconceituosa mas determinada em eliminar concorrências, a qualquer custo, de olho num potencial mercado de milhões de libertos.

E assim, o lento e pavoroso processo de princípios contrários à natureza humana só foi extinto em função de muito desgaste, esvaindo-se em si mesmo tal como a laranja podre que, finalmente desprendida do galho, se esborracha no chão. Os setores comprometidos seriamente  com o futuro da nação não podem desejar a repetição do jogo de “empurrar prescription online com a barriga” nesta hora em que se debate a educação como forma de resgatar uma dívida com séculos de atraso.

Se nos é permitido falar de justiça, a questão das cotas visando a participação dos negros em 100 % das universidades, bem como outros débitos sociais pendentes aguardando veredictos favoráveis a eles, antes de qualquer decisão formal do Governo  deveria constituir-se em sentimento manifesto na alma e no coração de todos os brasileiros: por aclamação nacional!”.
(Esse artigo foi publicado na íntegra pelo jornal Estado de Minas, dia 23/05 último, sob o título “Os novos Valongos”, se constituindo ainda, a questão das cotas para os negros, em grande polêmica à ser resolvida pelo Governo).
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