Prudentemente esquivando-se de usar termos radicais nas explicações sobre a invasão de 400 famílias em sua propriedade de 48 hectares, a Cooperativa Agropecuária do Alto Paranaíba – COOPADAP fez, ontem, um pronunciamento oficial através de folhetos distribuídos nas cidades de Rio Paranaíba e São Gotardo, limitando-se a citações das medidas legais pelas quais busca na Justiça a reintegração do terreno ao seu patrimônio. Tudo de maneira sensata e equilibrada para evitar o recrudescimento de antagonismos como se verificou por parte dos invasores no dia sete último.

Mas não deixa de ser curioso que as terras no Alto Paranaíba que hoje despertam instintos de cupidez e conflitos eram tidas no passado como sem nenhum valor comercial. Nos anos 60 ninguém se interessava por investimentos no solo vermelho do cerrado. Não se acreditava que servissem para alguma coisa. Durante período secular estiveram em mãos de grandes latifundiários tais como o milionário Antônio Luciano Pereira que as ostentavam muito mais pela quantidade de alqueires. Não obstante, depois de lhe serem tomadas pelo governo Médici, nos anos 70, ele, segundo se conta, até seus últimos dias, passaria a dedicar ódio mortal ao ministro da Agricultura Alysson Paulinelli. Alysson fez cumprir o decreto de desapropriação para assentamento das famílias de origem japonesa em mais de 60 mil hectares.

A verdade é que Guarda dos Ferreiros mais que duplicou sua população após a chegada dos japoneses, escolhida que  foi  para abrigar os trabalhadores então fluindo  de todos os Estados, principalmente, do Norte e Nordeste. Sem projetos públicos de infraestrutura urbana para construção de moradias, sem as condições básicas sanitárias, além da falta de energia elétrica e água, os “boias frias” foram erguendo amontoados de barracos dentro de um cenário até pior que favelas. Prova disso é que no período de verão os hospitais ficam repletos de pacientes, adultos e crianças, vítimas de doenças de todos os tipos provocadas pela ausência de saneamento básico.

Não falta quem culpe os proprietários de terras e as prefeituras de São Gotardo e Rio Paranaíba pelos graves problemas sociais, entre eles, o aumento assustador da violência nas duas cidades antes habituadas a uma vida pacata e ordeira. Virou rotina por lá as ocorrências de assaltos à mão armada. Enfim, durante anos seguidos se despeja em Guarda dos Ferreiros peões aos montões sem qualquer responsabilidade com os problemas futuros. O recrudescimento da violência tornou-se inevitável.

Também é muito grave o fato de que o distrito com população atual de 8 mil moradores – não existe um número preciso, pode ser muito maior – pertence aos dois municípios acima referidos. Do lado esquerdo, São Gotardo, no direito, Rio Paranaíba. Constantemente, seu povo  reclama do vicioso jogo de empurra nos dois órgãos rotineiramente  tentando lançar um para o outro as responsabilidades administrativas. Em outras palavras, a sociedade local está cansada de viver jurisdicionada às duas cidades e já tentou se emancipar através de movimentos, imediatamente sufocados.

Em 2011, por conta dos constantes desentendimentos, maus serviços prestados e muitos aborrecimentos provocados por duplas cobranças e a confusão territorial estabelecida pelas duas prefeituras – que nem mesmo sabem separar os endereços dos contribuintes na hora de emitir boletos – os moradores articularam uma rebelião silenciosa visando emancipar o distrito e se livrar, de vez, do jugo de duas administrações medíocres e rotineiramente ocupadas por prefeitos corruptos. Mas o movimento foi prematuramente sufocado.

Ainda assim, sempre necessitada dos serviços mais elementares, a população acaba sendo decisiva nos pleitos eleitorais, acreditando em promessas mentirosas de palanques,  deixando-se convencer.

O Distrito de Guarda dos Ferreiros é tão antigo quanto o Arraial da Confusão, hoje, São Gotardo. Tem 80 % do seu perímetro urbano subordinado a esta cidade. Foi elevado à condição distrital pela Lei n° 2.764 de 30 de dezembro de 1962. No Séc. XVIII tudo aquilo ali era a Fazenda dos Ferreiras, conforme se lê num acórdão da Câmara de Paracatu (também documentado pela Câmara de Pitangui). Por essa fazenda passava a lendária “Picada de Goiás” em cujas terras se fundou um quartel militar comumente chamado de Guarda do qual se originou a denominação “Guarda dos Ferreiros”.

É de se registrar que esse quartel fazia parte de outros 11 construídos para dar proteção aos diamantes do Rio Indaiá, Abaeté e ao ouro de Paracatu que, pela “Picada de Goiás, era transportado para Ouro Preto, sede da capitania. Até o fim do séc. XIX Guarda dos Ferreiros foi importante entroncamento de estradas rumo a Paracatu, Patrocínio, Patos, Lagoa Formosa, Carmo do Paranaíba, Tiros, São Gotardo ( então São Sebastião do Pouso Alegre), Dores do Indaiá, etc.

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