Na histórica Praça São Sebastião os grilhões contra os direitos

Direitos impedidos pelo poder dos grilhões

Quase cinco séculos após sua imposição na então colônia e 125 anos depois da lei que a extinguiu, a prolongada e terrível fase de servidão humana que manchou a história deste país ainda mostra  profundos e nocivos resquícios caracterizados pelo racismo, discriminação e muita má-vontade da sociedade e das autoridades públicas quando o assunto envolve reivindicações de direitos e manifestações culturais das comunidades afro-descendentes e indígenas.

Exemplo desta insólita realidade se deu, recentemente, dia 6 de outubro, em São Gotardo, município de 40 mil habitantes, no Alto Paranaíba, onde o menosprezo do poder público local ficou explicitamente manifesto nas comemorações da tradicional Festa do Rosário, evento de raízes culturais considerado, desde 1723,  um dos mais importantes de Minas Gerais dado o perfeito sincretismo existente nele das crenças católicas, negras e costumes indígenas, conforme se pode verificar, por exemplo, nos maravilhosos festejos de Dores do Indaiá, Ouro Preto, Mariana, Diamantina, entre tantas.

Pois estas autoridades, além de sua inexplicável objeção em contribuir com recursos  financeiros para os custos da festa não deram sequer o sinal de suas presenças e ainda criaram gravíssimas dificuldades a centenas de participantes, incluindo crianças,   quando mantiveram trancafiado em grossa  corrente e cadeado o portão de acesso aos banheiros públicos, omissão  ostensivamente atentatória à dignidade de cidadãos,  tal como se praticava nos períodos pretéritos de segregação às liberdades.

Município situado a poucos km do local onde existiu o famoso Quilombo do Ambrósio que abrigou milhares de prófugos da escravidão até ser massacrado por expedições enviadas de Ouro Preto, São Gotardo deveria  valorizar eventos como esse da Festa do Rosário brotados de  manifestações legítimas dos povos  afro-descendentes. Festa, enfim,  tão bonita que, hoje, a exemplo do carnaval, é formada por ternos de cidadãos brancos e negros, em laços de profundos sentimentos de união e religiosidade.

Mas o reconhecimento a estas tradições seculares não é o que parece acontecer nesta administração caracterizada, nos seus quase 11 meses, por pessoas erradas ocupando postos chaves, como é o próprio Departamento de Cultura à cargo de Maria de Lourdes Castro Urbano, “Lourdinha”.

É de se perguntar se ela, de fato, está suficientemente preparada para gerir funções tão importantes ligadas à preservação de costumes e tradições culturais da cidade. Durante a polêmica questão do Prédio Amarelo ela preferiu se ausentar permanecendo à distância dos debates para solução do problema. Não é segredo para ninguém que ela, até ano passado, no mandato anterior, ocupava o posto de tesoureira oficial do município, algo incompatível com sua atual atividade.

Neste caso não cabe nenhum pedido de desculpas às comunidades representativas da Festa do Rosário, pois se de um lado, na hipótese de não ter havido dolo intencional de menosprezar os participantes do evento, por outro, houve uma falha lamentável na escolha de uma pessoa insensível e sem experiência. Lourdinha” sequer se dignou a comparecer às comemorações.

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