córrego confusão........

Vive-se em São Gotardo uma sensação de descaso e menosprezo. A saúde da população está em jogo. As coisas, ao que tudo indica,  não andam muito bem na Copasa. A qualidade de sua água é questionada por uma engenheira sanitarista. Ela cita, como uma das causas, as lavouras de café e de hortigranjeiros às margens do Córrego Confusão. Destas áreas, segundo ela, se desprendem substâncias químicas derivadas de agrotóxicos que podem ser cancerígenas. Juntamente com outras de fertilizantes são carreadas para a represa do balneário onde se constata também a presença de bactérias indicadoras de contaminação fecal. O tratamento da água não consegue eliminar tais ameaças nocivas à saúde humana. Além disto, a cidade ainda se encontra  sob o clima tenso de possíveis ameaças ao abastecimento provocadas pela forte estiagem. O leito do ribeirão foi reduzido à menos de 30 %, influindo também no nível da represa onde a COPASA faz captação (foto).

(EXCLUSIVO) – As técnicas de tratamento de água adotadas pela COPASA de São Gotardo, no Alto Paranaíba, não são adequadas para promover a remoção de contaminantes agrotóxicos das lavouras locais, que podem ser cancerígenos. No sistema convencional, empregado pela empresa, verifica-se também ineficiência no processo de desinfecção das águas com presença de bactérias indicadoras de contaminação fecal.

Estas gravíssimas revelações se encontram descritas em um relatório de inspeção realizada nos mananciais da água consumida na cidade, originários do Córrego Confusão, pela engenheira sanitarista Alexandra Fátima Saraiva Soares, também graduada em recursos hídricos e meio ambiente, juntamente com a ambientalista Bárbara Adriana Dantas Azevedo e o geógrafo Nelson Uchoa, os três de BH, a serviço do Ministério Público de São Gotardo e Patos de Minas. Entretanto, ainda não circularam informações se o Judiciário já tomou as providências cabíveis.

Doutora Alexandra Saraiva Soares

Doutora Alexandra Saraiva Soares

O documento da doutora permite profundas indagações sobre a qualidade da água que chega às torneiras dos quase 40 mil habitantes, além de suscitar questionamentos quanto ao futuro do próprio sistema de captação das águas do ribeirão cujas nascentes estão localizadas em meio a lavouras de café e hortigranjeiros nas quais se usa a aplicação de fortes agrotóxicos e fertilizantes, conforme ela mesma declara.

A sanitarista revela também a inexistência, nas referidas lavouras, das necessárias barreiras de contenção, de forma a impedir que enxurradas de chuvas lancem sobre o córrego substâncias químicas derivadas de agrotóxicos. Isso é muito grave, pois todos os elementos nocivos são arrastados para a represa (balneário) onde se faz a coleta da água para tratamento. Não sem motivos Alexandra discorda do sistema da Copasa que não removeria da água os contaminantes agrotóxicos suscetíveis de substâncias cancerígenas.

População assustou quando a água parou de correr pelo vertedouro

População ficou assustada quando a água parou de correr pelo vertedouro

O certo é que os graves problemas envolvendo as questões ambientais e de abastecimento de água no município não serão resolvidos sem a participação ostensiva e simultânea dos órgãos diretamente afetos, COPASA, EMATER, IMA, IEF, CEMIG e Prefeitura. Os problemas pendentes de solução são conduzidos sob forte sigilo por causa dos interesses lastreados em atividades agrícolas irregulares em mãos de grandes produtores na região da Área de Proteção Especial, conforme é o caso de uma lavoura do próprio prefeito de SG, Seiji Eduardo Sekita.  

Até o ano de 1973, o município dispunha de água de altíssima qualidade não inferior ao padrão mineral, considerada um orgulho dos moradores. Com a chegada da colônia de origem japonesa e a formação das ricas lavouras de referência nacional, a região da APE, de dois mil hectares,  foi ocupada por dezenas de produtores rurais, gerando muita riqueza, mas não se evitando  os efeitos negativos das ocupações desordenadas do solo agricultável.

O resultado é esse que se vê, agora, refletido nas ameaças contra as próprias nascentes do Córrego Confusão. O replantio de matas típicas às margens do ribeirão deveria, agora, se constituir em débito pendente com o município, por parte daquelas famílias, hoje, poderosas, economicamente, originárias do país do sol nascente, pelo menos, no aspecto político no intuito de solucionar a grave questão. Até mesmo o Distrito de Guarda dos Ferreiros está pagando, demograficamente, o preço desse crescimento acelerado e sem planejamentos.

Os intrincados e gravíssimos problemas ligados à proteção e tratamento das águas do Córrego Confusão, incluindo o próprio sistema de abastecimento a cargo da Copasa (ainda em sinal de alerta não desativado por causa do forte período de estiagem) podem até piorar muito mais, existindo riscos de gerar situações caóticas na qualidade da água que já não é das melhore. Está enquadrada no padrão 02, ou seja, de qualidade mediana, podendo ser consumida, mas não totalmente isenta de substâncias químicas derivadas de agrotóxicos e bactérias não eliminadas pelo sistema convencional de tratamento adotado pela empresa. É de se registrar que o sistema adotado é o mesmo da maioria das empresas de saneamento, mas o caso de São Gotardo mereceria técnicas diferenciadas.

RELATÓRIO APONTA AS

INEFICIÊNCIAS DA COPASA

Também na estação de água da Copasa o relatório da doutora Alexandra deixa outra revelação gravíssima: verificou-se que muitos produtos químicos estavam com validade expirada.  E adverte que as pessoas responsáveis pelo controle de qualidade da água para consumo humano devem exercer observância, pelo menos, sobre os cinco agrotóxicos mais utilizados nas lavouras, na área do manancial, e de maior potencial de contaminação.

Recentemente, o editor deste site teve oportunidade de observar que muitas famílias, as de maior poder aquisitivo, já estão agindo, preventivamente, como se obedecendo a um instinto natural, não fazendo uso da água da Copasa, para beber. Adquirem o produto em distribuidoras ou até levando galões cheios coletados em fazendas para suas residências.

Há quem atribua o alto índice de óbitos na cidade, em decorrência de câncer, às substâncias derivadas de agrotóxicos aplicadas nas lavouras próximas aos mananciais, mas o médico Sérgio Pessoa, do Hospital Pio XII, há cerca de três anos, em entrevista a este site, afirmou que não há uma referência estatística explicativa das causas, sendo mais plausível, como justificativa,  o aumento da média de vida das pessoas proporcionado pelo progresso econômico e avanços da medicina. Ou seja, vive-se mais e os cânceres diversos surgem em idade avançada. Não se sabe o que o doutor diria, nos dias atuais. 

Dentre as recomendações da engenheira Alexandra Saraiva, ela sugere programas de educação e conscientização públicas, de forma que as pessoas saibam o que está sendo realizado, para proteger o fornecimento de água e contribuam para a eficiência do processo. Em São Gotardo, quando se trata de questões ambientais, dado os interesses e envolvimento de muitos produtores em irregularidades, o assunto é tratado no mais absoluto silêncio, contando, de certa maneira, com a cumplicidade dos órgãos fiscalizadores.

Leito completamente seco de um pequeno afluente do Confusão

Leito completamente seco de um pequeno afluente do Confusão

Também são graves as observações da engenheira sanitarista confirmando que na região das nascentes do Confusão existem ocupações irregulares de  lavouras cujos plantios não estão devidamente isolados da captação de águas: “conclui-se, diz ela, que há ocupação irregular por lavouras na sub-bacia do Córrego Confusão a montante do ponto de captação de água para abastecimento e em Área de Proteção Especial (APE). Sugere-se que seja adequado o sistema de tratamento desde a captação até a distribuição do produto “água-potável”.

Pela leitura destes dados tem-se a triste confirmação de que o atual prefeito de São Gotardo, Seiji Eduardo Sekita, de forma nem um pouco exemplar, é dono de uma lavoura na região da APE. Pior ainda, o empreendimento, lamentavelmente, se localiza praticamente em cima da primeira nascente do ribeirão.

Ora, se Sekita, como prefeito, não está dando o necessário exemplo de cidadania, o que se pode esperar dos demais donos de lavouras espalhados ao longo das duas margens do Confusão? Sem imediatas restrições proibitivas ao mandatário, como medida didática aos demais plantadores, jamais se dará início a qualquer projeto de proteção aos mananciais. Não se entende, até hoje, porque o prefeito ainda não recebeu um ultimato do IEF, inclusive, acompanhado da multa respectiva.  Ele está desrespeitando, claramente, a lei que rege o assunto.

Em relação às responsabilidades da Copasa, a conclusão que se tira é de que as operações na Estação de Tratamento estão sendo feitas com equipamentos sucateados. Tem-se, como exemplo disto, as recomendações da engenheira sanitarista sugerindo reformulação em praticamente todo o complexo. Não se esperava que esta firma criada para esta atividade, necessitasse de tantas recomendações.

Segundo a doutora Alexandra, constatou-se a ausência de equipamentos/instrumentos indispensáveis à operação de uma Estação de Tratamento de Água – ETA: turbidimento, clorímetro digital, bem como equipamentos de segurança individual (EPI) para um dos operadores que manipulam os produtos químicos, além de outras irregularidades tais como condições inadequadas de armazenamento de reagentes e produtos com validade expirada e ausência de manuais de procedimentos operacionais padrão e outros.

Diz também o relatório: “O método de tratamento para potabilização das águas superficiais de SG é do tipo convencional. Essa técnica, se bem utilizada, remove eficientemente os sólidos suspensos que conferem turbidez e cor às águas. No entanto, constatou-se ineficiência no processo de desinfecção das águas submetidas ao tratamento convencional, com presença de bactérias indicadoras de contaminação fecal”. (Uma destas bactérias seria a “echerichia coli” que se instala no intestino das pessoas)

E mais, diz ela: “Que a EMATER e o IMA sejam acionados para indicar os agrotóxicos que são, de fato, aplicados na região, para serem, prioritariamente, monitorados nas águas”.

A natureza ameaçou cobrar preço da devastação

Natureza ameaçou cobrar preço da devastação

Além de todos esses problemas considerados gravíssimos, a Copasa vem sendo acusada, pelos vereadores de São Gotardo, de não ter executado um projeto sequer de recuperação ambiental na Área de Proteção Especial-APE, do Confusão. Oportunamente, a sanitarista recomenda cobrar da firma os investimentos, previstos em lei específica, de no mínimo 0,5 % (meio por cento) do valor total da receita operacional ali apurada. Em outras palavras, a empresa, assim como a CEMIG,  é obrigada a investir parte dos seus lucros na recuperação do meio ambiente. A CEMIG porque se beneficia das águas do ribeirão correndo em direção à Bacia do Rio São Francisco.

QUALIDADE DA ÁGUA

    É DUVIDOSA

Outra avaliação feita por Alexandra Saraiva é de que existiria um processo mais eficiente de monitoramento da qualidade da água, porém, exigente de consideráveis gastos. Ora, esse método seria ideal para cidade, para eliminação das substâncias provenientes de agrotóxicos e bactérias, mas não ocorre lá, certamente, porque a Copasa, para barateamento de custos,  estaria se utilizando de métodos convencionais não recomendáveis para este caso.

Assim, absurdamente, seria a própria população a pagar o preço desta decisão, consumindo água de baixo padrão. Vejamos o que diz a doutora: “A melhor forma de avaliação do potencial de impacto no meio ambiente consiste na condução de estudos de monitoramento em campo com coleta freqüente e regular, durante longo período de tempo. Mas esse processo requer prazos extensos e recursos financeiros elevados, para geração de dados consistentes”.

Ou seja, essa técnica não é adotada em SG, considerada área diferenciada das demais, onde o leito do ribeirão Confusão percorre um trecho de 8 km entre lavouras de café e hortigranjeiros. Não se pode imaginar que esta companhia de capital misto veja São Gotardo somente sob o aspecto do lucro, pois, antes de tudo, está lidando com a saúde do povo, sendo essa sua atribuição mais relevante.

Sabe-se na cidade que a concessão do sistema de água e esgoto de São Gotardo foi repassado a ela, em total sigilo, na calada da noite, pelo ex-prefeito Paulo Uejo, em condições consideradas vexatórias, uma verdadeira bagatela, tendo como avalista da operação o próprio filho Chico Uejo, então deputado, praticamente sem contrapartida da empresa em favor do município dentro do qual não se encaixou vários distritos como beneficiários também dos serviços.

 

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