Prédio vivo na memória de cada são-gotardense

Imagem sempre viva na memória de cada são-gotardense

O mais famoso edifício de São Gotardo, o “Prédio Amarelo”, na Praça São Sebastião, de propriedade da prefeitura, considerado acervo histórico de valor imensurável por simbolizar os momentos mais ricos e efervescentes da cultural local, se afigura, hoje, como insólito retrato de abandono, tristeza e desolação. Recentemente,  foi esvaziado, trancafiado e proibido nele o acesso de quem quer que seja após apresentar preocupantes sinais de trincamento nas lajes do primeiro e terceiro andar.

Apesar de edificação com idade aproximada de 70 anos, seus problemas estruturais podem ser decorrentes muito mais  do desmazelo e da imprevidência  como vinha sendo  utilizado se transformando em depósito de volumes pesadíssimos, no terceiro andar. Ali guardadas se encontravam toneladas de arquivos motivo que teria sido causador de sérios abalos, de cima para baixo. Há quem não duvide dos riscos de ele desabar, já se estimando em R$ 1 milhão os custos com as obras de reforço visando sua salvação.

Não há dúvida de que o eventual desabamento ou mesmo uma possível decisão de demolição vão  causar indignação e consternação em milhares de cidadãos residentes no município, em outros estados e até no exterior. Muitas educadoras,  ainda hoje, em  plena atividade, frequentaram ali  os diversos cursos de ensino secundário sob direção das irmãs sacramentinas e franciscanas. Em relação aos possíveis riscos de o prédio vir abaixo, haveria um laudo do Corpo de Bombeiros de Patos de Minas, mas este site não conseguiu ter acesso a ele.

Toneladas de arquivos teriam abalado estrutura

Toneladas de arquivos teriam abalado estrutura

Problemas graves afetando o prédio, decorrente de desmazelo,  já não são de agora. O atual vereador Gilberto Cândido de Oliveira, “Ganga”, ex-prefeito, denuncia que ao assumir o cargo, substituindo o médico Paulo Uejo, encontrou o edifício com todo o telhado desabado. Pior ainda, a água da chuva entrava copiosamente pelo cobertura em ruínas, espalhando-se por toda a estrutura.

E afirma: “Mandei executar as devidas obras de reforma e  não existia esse problema quando deixei a prefeitura, mas posso informar que o terceiro andar vinha sendo usado, há tempos, como depósito para guardar pesadíssimo e volumoso arquivo acumulado, de muitos anos. A laje não poderia suportar o peso, pois não foi planejada para isto e  pode também ter gerado reflexos na cobertura de cimento do primeiro andar”.

As administrações públicas de São Gotardo nunca foram  modelos exemplares de  proteção aos seus edifícios históricos como se verifica   nos flagrantes casos da antiga matriz de São Sebastião, a primeira rodoviária tão bem identificada com os moradores,  e o belo Forum e Cadeia, na avenida Getúlio Vargas, todos eles caracterizados  por demolições indecorosas e inexplicáveis.

Na escadaria, agora, apenas o silêncio

Na escadaria, agora, apenas o silêncio

Nos últimos dois dias, o jornalista deste site, por diversas vezes, tentou, insistentemente,  falar com a diretora do Departamento de Cultura, Maria de Lourdes Castro Urbano, “Lourdinha”, deixando, inclusive, telefones para retorno, mas foi como se ela tivesse  sido tragada pela terra. Ela, agindo disciplinadamente subordinada a ordens superiores,  preferiu abster-se de fazer pronunciamento oficial e, infelizmente,  são estas atitudes as causas, em São Gotardo,  do desmantelamento de  antigos acervos.

Neste dia 03/09,  às 13h48m, o celular desta janela recebeu mensagem de pessoa não identificada informando que qualquer esclarecimento sobre a questão tem de ser solicitado diretamente à SEMEC, por escrito. Não o fizemos, conhecemos a burocracia. Foi no SEMEC que a procuramos, diversas vezes. Escondeu-se de nós. Agora, quer que façamos pedido, por escrito.  Já tínhamos esperado muito. Não queremos notícia para daqui a uns  dias.

Há mais de 30 dias, o repórter falou com a diretora. O prédio já estava fechado e ela, como titular do cargo,  já tinha os motivos técnicos a serem explicados à população. Não havia  o que postergar. Por falar nisso, o período de chuvas  está se aproximando. Este assunto é muito grave e o site se encontra plenamente franqueado à prefeitura, por intermédio dela.

Mais tarde chegaria, via e-mail, assinado pela própria  Lourdinha, a seguinte orientação:

User Details
Name : Maria de Lourdes Castro urbano
Email id : semeculturasg@yahoo.com.br
Phone No :
Message : “Sr. Wolney, Informo   que qualquer informação a respeito do Prédio Amarelo ou de qualquer outro bem tombado do municí­pio, seja feito por escrito endereçado á SEMEC/Setor de Cultura/Conselho do Patrimônio histórico e Cultural de São Gotardo ou ainda diretamente ao Gabinete do Prefeito Municipal de São  Gotardo A/C do Sr. Vice-Prefeito Municipal Sr. Carlos Alves de Camargos, que será prontamente respondido. Caso queira que seja agendada uma reunião para maiores esclarecimentos junto à  Administração/SEMEC/Setor de Cultura e Conselho do Patrimônio Artístico e Cultural de São Gotardo, favor entrar em contato com o Setor de Cultura, através dos telefones: 34-3671-3121 ou 34-3671-2204, ramal 27. Atenciosamente, Maria de Lourdes Castro Urbano”.

POLÍTICOS FORMADOS

NA PRÁTICA DE DESTRUIR

Desde quando, no  ano de 1938, se inaugurou  o ensino público de nível secundário com o nome de Ginásio Municipal de São Gotardo sob  a direção de  ninguém menos que o lendário  ex-prefeito Bento Ferreira dos Santos, o Prédio Amarelo, com toda justiça, vem ocupando  destacada e insubstituível posição de honra na Praça São Sebastião pela sua grandiosa representatividade como centro de pulsação dos momentos mais ricos e efervescentes da vida cultural  do  município, se constituindo, por isso mesmo, em  bem de valor inestimável  do patrimônio histórico local.

Desmontes, nada ficou no prédio

Desmontes, nada ficou no prédio

O colégio começou funcionando,  segundo o escritor Juquinha Carneiro, na antiga  sede do Grupo Escolar Estadual Afonso Pena  mesmo lote onde mais tarde seria edificado o Prédio Amarelo. Posteriormente,  a prefeitura o repassou  às irmãs sacramentinas, ainda na sede velha do Afonso Pena, com o nome de Escola Normal Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Houve necessidade de obras de restauração.

Elas  o administraram  até 1954. Em 1955, a instituição  foi  entregue ao  professor Carolino de Sá, batizado de  Colégio Municipal, mas este lá permaneceu  apenas meia década.  De 1960 até 1984, o órgão de ensino então  sob orientação das  freiras franciscanas teve o nome  alterado para Escola Normal Municipal de São Gotardo.  E foi  quando o governo municipal tomou  a decisão de  nunca mais usar o Prédio Amarelo em funções   escolares.

Mas a intensa atividade  ainda  continuaria ali presente por muito  tempo e   sempre sob o carimbo do serviço público.  Desde então,  o  espaço serviu de sede da Escola técnica de Comércio,  do Departamento Municipal de Saúde, Câmara Municipal de Vereadores,  Departamento Municipal de Cultura, Biblioteca Pública e a Casa de Cultura Dom José Lima.

No 3° andar, partes de instrumentos musicais de antiga banda. Esta área funcionou como dormitório de internos entre os anos 55 e 60

No 3° andar, partes de instrumentos musicais defeituosos de antiga banda. Esta área funcionou como dormitório de alunos internos entre os anos 55 e 60

Recentemente,  informado pelo radialista  Roncalli Carlos, da Rádio Alvorada, de que o edifício tinha sido interditado  por causa dos  riscos reais de desabamento,  o jornalista sentiu o peso desta decisão na história da cidade e para lá se dirigiu, apressado. Seria inconcebível ver  como espaço vazio aquele lugar ainda ocupado pelo edifício.

Coincidentemente, algo por ele jamais esperado, ao chegar, não apenas confirmou a notícia, mas teve também  a insólita oportunidade de  documentar marcantes agitações de uma operação final de esvaziamento do edifício onde funcionárias, numa cena comovente e triste, juntavam os últimos bens lá guardados, volumosas pilhas  de arquivos, certamente, contendo  neles toda a história ali ocorrida em décadas de existência. Não havia mais dúvidas,  a decisão de lacrar o Prédio Amarelo  representava  um terrível diagnóstico confirmando suspeitas de longa data de que ele  está mesmo afetado por graves problemas de solidez estrutural correndo riscos reais de se encontrar  no cronograma de fase terminal.

O famoso edifício está situado na privilegiada área mais representativa da história local,  ou seja, de frente onde, antigamente,  ficava precioso e soberbo  acervo de  marcos identificados com raízes locais:  a pequenina  matriz de  São Sebastião, construída em 1866; e o famoso Cruzeiro  lavrado em madeira  aroeira ,  (com a torquês e o martelo) ladeado por dois imponentes  coqueiros,  obras de plena dedicação de Frei Paulino, em 1873, missionário   procedente da região de Dores do Indaiá.

Antiga matriz, o cruzeiro e os coqueiros de frei Paulino

Antiga matriz, com as varandas, o cruzeiro e os coqueiros de frei Paulino

Outra  marca do religioso  foi a construção  das varandas laterais da singela igrejinha edificada em estilo colonial. Inclui-se aí, a uma curta distância  de 300 metros, em plena praça,  o imponente prédio do grupo Escolar Estadual Afonso Pena, realização de nobre  acabamento que, em 24 de janeiro último, completou  93 anos  desde  sua  inauguração, já catalogado como patrimônio mais antigo.

Sobre a igrejinha faltava,  então,  pouco tempo para sua demolição (1945), mas em sendo verdade que o Prédio Amarelo,  a partir dos anos 40  já estava  concluído, conforme afirmativa de  um escritor sem a devida documentação,  (cidadãos antigos poderiam nos confirmar) os estudantes da Escola Normal, certamente, tiveram o privilégio rotineiro de poder contemplar, após subir as escadarias até o terceiro andar, o lindo cenário dela voltada para o lado da atual Câmara Municipal em cujas proximidades chacoalhavam  as folhas dos dois  lindos coqueiros de Frei Paulino ao  toque suave da  brisa sempre ali chegando, suave, pura e refrescante, do elevado bairro da Papagaio (Boa Vista).

Quem foi aluno do colégio e  porventura presenciou  tudo lá do alto, com certeza, hoje, em idade avançada,  deve ter ainda bem registrados na memória aqueles  momentos mágicos solidificados na raízes da história local.

E foi então que, inexplicavelmente, sem nenhuma justificativa de extrema necessidade, decidiu-se rasgar esta belíssima página da  história local. Poucas cidades são tão useiras na prática de destruir bens históricos, como São Gotardo. Entre os anos 44 e 45, de maneira imprevidente e precipitada, suas paredes  foram lançadas ao chão, sendo transferindo todos os seus pertences  e rituais para a matriz  recém inaugurada.

Radialista Roncalli, da Alvorada, aceitaria  participar de uma campanha para levantar fundos. Quer sentir a reação de quem mora dentro e fora de  São Gotardo, até no exterior

Radialista Roncalli, da Alvorada, aceitaria participar de uma campanha para levantar fundos. Quer sentir a reação de quem mora dentro e fora de São Gotardo e até no exterior

Esse atentado contra o patrimônio público  redundou em duplo prejuízo à memória do município,  pois foi quando desapareceu de vez o culto ao santo alemão Sankt  Gothhard  em quem se inspirou  o atual  nome do município, pela  Lei 3.300 de 27 de agosto de  1885, do deputado provincial e  vigário da cidade, padre  Miguel Dias Kerdole . Há poucos dias, portanto, de maneira despercebida, sem sequer uma palavra de referência, registrou-se os 128 anos da cidade com o nome do religioso alemão. (Ver neste site matéria/pesquisa “São Gotardo, História Maravilhosa que a História Nunca Contou”)

No lugar da pequena  igreja  surgiria a não menos diminuta rodoviária  que, igualmente, anos mais  tarde,  seria raivosamente   derrubada por motivos,  até hoje, ainda exigindo explicações morais.  A pequena estação,  caiu, romanticamente,   no gosto do povo e durante anos o exíguo espaço foi  muito  disputado , sempre  repleto de gente. Sobre o teto  só de laje, Luiz Gonzaga  fez inesquecível apresentação, cantando  seu grande sucesso “Asa Branca”.

DESRESPEITO À COISA PÚBLICA

Para se ter noção de  como  sempre foi tratado com desrespeito a parte mais representativa da história  situada nas proximidades  da tradicional Praça São Sebastião, incluindo ruas com nome de cidadãos ilustres, é digno de se registrar ainda que,  ali bem pertinho, pouco acima, na avenida Getúlio Vargas, ficava o Fórum e Cadeia (foto), importantíssima e bela edificação direta e forçosamente  ligada às origens do município.

A edição da lei de emancipação, em 1914, desligando-se de Rio Paranaíba, exigiu sua construção (e também uma escola), concedendo-se  prazo de um ano, sob pena dela ser revogada. Só então, em 30 de setembro de 1915, foi confirmado o decreto. (O  status  de cidade, também obedecendo lei específica, só iria ocorrer 10 anos mais tarde, em 1925)

Pois muito bem! Nos anos 70, seu belíssimo traçado repleto de frisos e enfeites em alto relevo delicadamente acabados foi  cruelmente jogado ao chão, sendo substituído pelo atual e horrível “caixotão”  desconfortável, de dependências  apertadíssimas, verdadeiros cubículos, uma escadaria proibitiva a cidadãos idosos, plenário de júri só para 40 assistentes, sem oferecer um mínino de dignidade aos agentes públicos  lá trabalhando, conforme  se pode verificar nas salas da magistratura e do Ministério Público. Enfim, obra vergonhosa dos tempos da modernidade.

Nos anos 70, novo atentado contra a história do município

Nos anos 70, outro atentado contra a história do município

O atual prédio ocupa o mesmo espaço numa área onde, à época, poder-se-ia  construir o novo e preservar o antigo. Um absurdo, ali funcionava uma Corte de Justiça criada como símbolo do próprio diploma de autonomia política administrativa, mas também foi implacavelmente  reduzida a pó.

Para se ver como a cidade sempre enfrentou problemas quando o assunto se refere a preservação de prédios públicos, durante a edificação do fórum e da escola de ensino básico, entre 1914 e 1915,  o projeto de lei de emancipação esteve sempre ameaçado de não ocorrer em tempo hábil, por falta de tijolos (não se fabricava tijolos na região) e  os salários dos pedreiros sempre atrasados.

Em se tratando do Grupo Estadual Afonso Pena, a instituição, após a conclusão das obras, ficou  três anos à espera de ser inaugurada e tudo por conta de uma desavença irreconciliável entre duas fortíssimas lideranças locais ninguém menos que dois coronéis, o “perobense” Antônio Lopes Fonte Boa e Frederico Coelho Duarte. Permanecendo  tanto tempo sem ser usado o prédio acabou sofrendo  desgastes estruturais e teve de receber obras de reparos. Como se verifica sob o ângulo da história,  os casos hilários, se não trágicos,  de nossa atual política, parecem fazer parte da herança genética  circulando nas veias de cada candidato.

Tais citações deveriam servir de exemplo  atualizado no sentido de a população  não se acomodar  ante possível  má-vontade  das autoridades públicas em relação ao Prédio Amarelo. Há quem prefira o edifício jogado ao chão, só para economizar gastos.  Faz-se necessário registrar, oportunamente: o aniversário de 100 anos da emancipação política, dia 30 de setembro de 2015,  está chegando. Seria  um retrocesso se ela ocorresse  já com o edifício transformado em entulhos.

Ironicamente, não se sabe, até o presente momento, de nenhum pronunciamento dos vereadores sobre essa situação exigente dos seus olhos atentos. Por outro lado,   seria  um bom momento para entrar em ação as lideranças  do recente e bem-sucedido  movimento de caráter cívico ocorrido  na cidade. Afinal, a  prefeitura, até hoje, não anunciou um programa destinado à recuperação do edifício. E é  fato também que a sociedade não pode assistir submissa a perda de um bem precioso.

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