A onda do mar que explodiu as colunas de uma ciclovia no Rio de Janeiro como se ela fosse uma caixa de fósforo, matando duas pessoas, poderia ter sido uma tragédia evitada. Já se tem certeza de que a obra impregnada do cheiro de corrupção por conta de frequentes reajustes de preços foi inaugurada sem sequer um atestado de perícia garantindo sua segurança.

Pois algo típico dessa safadeza aconteceu em Mariana, no Distrito de Bento Rodrigues onde também faltou fiscalização preventiva do poder público no rompimento da Barragem do Fundão, dia 5 de novembro passado, causador do maior desastre ambiental da história do país, matando 20 pessoas, destruindo tudo à frente e contaminando a água ao longo dos 800 km do Rio Doce e áreas de reserva ecológica no Oceano Atlântico.

Quando explodiu a represa, armou-se o maior palco de encenações que já se viu na história para exibição de grotescas representações populistas, muita farsa, mentiras, hipocrisia e interesses escusos. Os atores principais dessa burlesca peça teatral, além dos diretores da empresa SAMARCO, foram as próprias autoridades do Ministério Público, Governo Estadual, Federal, órgãos ambientais e a prefeitura municipal de Mariana através de sua secretaria municipal do Meio Ambiente, não se incluindo aí a transformação da própria tragédia em palanque de campanhas eleitoreiras mirando os pleitos municipais ora em curso.

Houvesse uma investigação profunda e neutra por parte de organismos internacionais sobre as causas do rompimento, a SAMARCO, claro, não se livraria de suas responsabilidades criminais, mas confirmar-se-ia também, com profunda amargura e decepção, que a hecatombe jamais teria ocorrido não fosse o descalabro da omissão e desleixo por parte das autoridades públicas constituídas, sempre chegando tarde no cumprimento dos seus deveres.

Em todas as barragens de mineradoras rompidas no estado de Minas (abaixo relacionadas) as autoridades, promotores, fiscais, peritos, órgãos estaduais e federais do meio ambiente, caíram supostamente implacáveis em cima dos proprietários, aplicando multas, ameaçadores, abrindo inquéritos e prometendo todos os rigores da lei para, no final, tudo terminar em marmelada.. Sempre tem sido assim e as hecatombes voltam a se repetir.

Um dia depois da tragédia de Bento Rodrigues, o governador Fernando Pimentel esteve em Mariana e concedeu entrevista no escritório da própria SAMARCO, atitude considerada estranha e constrangedora, assim dizendo: “Não podemos apontar culpados, sem uma perícia técnica mais apurada”. Palavrório muito suspeito e tendencioso. E por qual o motivo a primeira autoridade do Estado concederia entrevista justamente na sala da empresa causadora da maior tragédia ecológica do país? Como se não bastasse, ainda deu uma amaciada no tom. Empresas poluidoras do porte da SAMARCO são useiras e vezeiras em comprar facilidades, financiando campanhas eleitorais.

A própria Dilma Rousseff, quando sobrevoou Mariana, sem contudo descer no local da tragédia ,mostrou o quanto um governante pode ser populista. Aparentando cara fechada de presidentona rigorosa e implacável foi logo sacando o talão de multas e puniu a SAMARCO com uma canetada de R$ 250 milhões, ainda sem ter qualquer informação dos prejuízos materiais e ecológicos, além das vidas perdidas.Vejam quanta ironia: pouco tempo depois, a empresa chegaria a um acordo de reparação no valor de R$ 20 bilhões. Repetindo, R$ 20 bilhões. É provável que a referida multa nem mais exista. Deve ter sido incluída no acerto de R$ 20 bilhões. No Brasil já virou costume jogar para a plateia

Os representantes do Ministério Público, estes nem se fala, deram um verdadeiros shows de exibicionismo em favor das vítimas de Bento Rodrigues. Eles têm muitos deveres mas pouco fazem. Tivessem eles exigido laudos antecipados à SAMARCO sobre as condições da Barragem Fundão, o incidente não teria ocorrido. Só apareceram após a tragédia, quando já era tarde, numa encenação teatral perfeita, usando de todos os rigores e garantias em favor das vitimas.

Segundo órgãos da imprensa, quatro meses antes foi feito um laudo atestando problemas gravíssimos na barragem, mas esse documento não aparece e nem se sabe quem o assinou. Atualmente, as exigências e ações contra a SAMARCO são tantas que, possivelmente, dia menos dia, vão leva-la à bancarrota. E tudo poderia ter sido evitado através de fiscalização preventiva.

A Prefeitura de Mariana também tem sua parcela de grande culpa. É notório que ela e sua Secretaria do Meio Ambiente faziam vista grossa, em agradecimento aos R$ 4 milhões em tributos (royalties) que a firma lhe recolhia, mensalmente. Sobrevivendo quase que exclusivamente dessa arrecadação, a prefeitura desta cidade, logicamente, não se indisporia contra a empresa. E muito menos os agentes da referida secretaria. O castigo veio a cavalo. Fazendo média com os donos da empresa, o prefeito perdeu os imprescindíveis royalties, além do problema social ocasionado pelo desemprego no município.

Em se tratando de hecatombes nas barragens de mineração, mais de 140 em Minas Gerais, as ocorrências de repetição são frequentes. Os danos à fauna e à flora são de causar revolta, matando seres humanos, rios poluídos, mortandades de peixes e animais, deixando populações inteiras sem abastecimento de água e correndo riscos de envenenamento. Nem por isso se tem notícia de empresários condenados e presos.

O registro mais antigo deste tipo de acidente em Minas Gerais foi em Itabirito: sete pessoas morreram no rompimento da barragem de rejeitos da Mina de Fernandinho, do grupo Itaminas.

Em 2001, cinco pessoas morreram em um acidente grave em Macacos (São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima) quando resíduos de mineração encobriram dois quilômetros de uma estrada, após o rompimento de uma barragem da mineradora Rio Verde (hoje Vale). O acidente também causou assoreamento, degradação de cursos hídricos e destruição de mata ciliar.

Na data de 29 de março de 2003 uma barragem de rejeitos industriais se rompeu em Cataguases. Foi um dos piores acidentes ambientais do país: cerca de 1 bilhão e quatrocentos milhões de litros de lixívia negra, resíduo da produção de celulose, contaminaram o Rio Paraíba do Sul e córregos próximos por 200 quilômetros, atingindo também o interior do Rio de Janeiro e deixando 600 mil pessoas sem água. Peixes, animais que viviam às margens dos rios e muito da vegetação foram devastados pelo desastre.

Também em janeiro de 2007, uma barragem com rejeitos da mineradora Rio Pomba Cataguases rompeu e inundou as cidades de Miraí e Muriaé com mais de 2 milhões de litros de lama de bauxita. Mais de 4 mil pessoas ficaram desalojadas e 1.200 casas foram atingidas. A mesma barragem já tinha causado problemas em março de 2006, quando um vazamento contaminou córregos e rios, matando centenas de peixes e interrompendo o fornecimento de água. Apesar do histórico, na época do acidente de 2007, a mineradora atribuiu a causa do acidente às chuvas fortes do começo do ano.

Em 10 de setembro de 2014, o talude da barragem B1, na Mina Retiro do Sapecado, da Herculano Mineração, em Itabirito, se rompeu e deixou três mortos e um ferido. O acidente aconteceu quando seis funcionários trabalhavam na manutenção da barragem e foram surpreendidos pela onda de lama e rejeitos de minério. Na época, um estudo da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) indicou que mais de 40 barragens no estado não tinham garantia de estabilidade.

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