De manhã, tão logo a porta de vidro é aberta, os vira-latas entram em desabalada carreira e se refestelam sob mesas e cadeiras, dormem à vontade, fazem xixi nas paredes e livros, se irritam quando ameaçados de expulsão, colocam em risco a saúde crianças, mas o prefeito Ronaldinho e a secretaria Luciana Maria não se dão conta dos perigos.

De manhã, tão logo a porta de vidro é aberta, os vira-latas entram em desabalada carreira,   se refestelam sob mesas e cadeiras, dormem à vontade, fazem xixi nas paredes e livros, se irritam quando ameaçados de expulsão e colocam em risco a saúde de crianças, mas o prefeito Ronaldinho e a secretaria de Educação, Luciana Maria Silva, não se dão conta dos perigos.

Na cidade de Dores do Indaiá, Alto São Francisco, que tem uma população de 13.700 habitantes, a pequena biblioteca municipal “Escritor Emílio Guimarães Moura”, à Rua Benedito Valadares, 25, mal cabe 20 pessoas caso compareçam, simultaneamente, para requisitar livros ou fazer pesquisas. Nos últimos meses esse problema se agravou porque leitores, entre crianças e adultos, são obrigados a disputar os exíguos espaços das duas únicas salas com os cães de rua  que já se tornaram habituais visitantes como se donos do pedaço e até rosnam e escancaram os dentes afiados contra quem tenta espantá-los. Infelizmente, são animais abandonados vítimas de atos  cruéis  por parte dos seus antigos donos, para os quais se necessitam de medidas protetivas, urgentes. 

Visitante de todos os dias que parece sentir-se em casa

Visitante de todos os dias que parece sentir-se em casa

São todos vira-latas, animais sem donos, malcheirosos, repletos de pulgas e carrapatos que – atraídos pelo cheiro da carne de um açougue próximo – acabaram se aclimatando ao ambiente da biblioteca onde entram em grandes levas. Tão logo a instituição é aberta são os primeiros “frequentadores” a entrarem.

Muito à vontade, como se estivessem num quintal, marcam a posse do lugar fazendo xixis nas paredes, na porta de vidro e até mesmo no dorso dos livros expostos na parte baixa das estantes. Uma senhora de 90 anos, residente bem ao lado, diz que não os suporta, mas no fundo o desabafo é só na aparência, pois se deixa comover e até coloca vasilha com água para eles, amorosamente, na porta da rua.

Luciana Maria Silva, secretária Municipal de Educação. "Ela está sempre de olho em mim", diz a professora Luciana Teixeira

Luciana Maria Silva, secretária Municipal de Educação. “Ela está sempre de olho em mim”, diz a professora Luciana Teixeira

De fato, eles dão muita canseira aos cinco funcionários. O dia inteiro alguém fica por conta deles. Dores do Indaiá se tornou um caso inédito no pais em que uma biblioteca pública tem o espaço dividido, simultaneamente, entre leitores e cães vira-latas. Pior mesmo é que os intrusos visitantes não gostam de ser incomodados. E ai de quem se arrisque!

Alunos de escolas básicas, que lá comparecem rotineiramente, adoram ter contato com os animais, desobedecendo recomendações em contrário, para lhes fazer carinho. Alguns aceitam, docilmente, outros reagem irritados, rosnam e ameaçam abocanhar. E tão logo adentram o recinto, após fartos xixis, se escarrapacham, sob as cadeiras das mesas onde dormem e descansam livres das más pessoas que, nas ruas, lhes enxotam ou atiram pedras. Só quando a fome aperta se levantam e saem em busca de algum resto de comida em latas de lixo.

"Ronaldinho" só está pensando na releição, é o que povo fala

“Ronaldinho” só está pensando na reeleição”, é o que o povo fala

Por maior que seja o piedoso respeito, é inadmissível a permanência deles no local, pois são portadores de pulgas, carrapatos e exalam mau cheiro do contato com o lixo, além de levar com eles os riscos de perigosas doenças transmissíveis tais como raiva, ancilostomose, Lyme (transmitida pelo carrapato), leptospirose e micose. Várias vezes, o prefeito Ronaldo Costa, “Ronaldinho” e a secretária de Educação Luciana Maria Silva foram notificados do grave problema, mas nunca tomam as providências. Dizem que a prefeitura, até hoje, não possui uma área de canil para abrigar animais que vivem nas ruas.

Biblioteca municipal de Dores: Invadida por cães vadios e sem estrutura para receber visitantes em busca de pesquisas e livros. Não dispõe sequer de banheiro em condições de uso. Durante três anos e meio da atual administração não se trocou 12 lâmpadas queimadas. Menosprezo e abandono aandono à cultura na terra de tantos poetas e escritores importantes

Biblioteca Municipal de DoreS do Indaiá: Invadida por cães abandonados  e sem estrutura para receber visitantes em busca de pesquisas e livros. Não dispõe sequer de banheiro em condições de uso. Durante três anos e meio da atual administração não se trocou 12 lâmpadas queimadas. Menosprezo e  abandono à cultura na terra de tantos poetas e escritores importantes

“No dia em que uma criança for mordida ou contaminada aqui na biblioteca com alguma doença grave, quem irá pagar por tudo é o lado mais fraco, nós funcionários, mas não aceito isso e ponho mesmo a boca no mundo, pois sou professora e tenho responsabilidades profissionais e éticas com os pais de alunos. No que depender de mim, nenhuma criança sairá daqui, ferida ou doente”. O desabafo é da educadora Luciana Teixeira de Sousa que, presentemente, por determinação do prefeito Ronaldinho, se encontra trabalhando na biblioteca municipal. Esta é a terceira vez, no atual mandato, que Luciana é transferida do cargo de professora para outros setores burocráticos, na tentativa de se livrar dela que está sempre denunciando irregularidades na Prefeitura. Na verdade, essa medida do mandatário incorre em gravíssimo ato de desvio de função que poderá custar aos cofres do município um grande processo indenizatório, para, no caso de Luciana, reparação de situações humilhantes contra a dignidade, a honra pessoal e profissional de uma cidadã.

Jogada de um lado para outro nas repartições públicas, a educadora Luciana já se sente cansada e deprimida, mas afirma acreditar que a honestidade vence no último capítulo

Jogada de um lado para outro nas repartições públicas, a educadora Luciana já se sente cansada e deprimida, mas vai lutar por acreditar que a honestidade vence no  capítulo final

Quase em lágrimas, ela, que nem dorme direito tamanho é o desgosto, assim lamenta: “Já me colocaram até no setor de transportes e ainda quiseram que eu assinasse coisas ilegais, mas jamais aceito participar de imoralidades. Muitos amigos me aconselham à ficar calada já que um político prefere pessoas incompetentes se elas não causam incômodos. Só que minha consciência não está à venda. Coisa lamentável constatar que, nesse país, quando pessoas tentam ser honestas são chamadas até de malucas”, atira.

Biblioteca é o ponto de referência da "turminha" enquanto aguarda cheiro de carne vindo do açougue

A biblioteca é  ponto de referência da “turminha” enquanto aguarda  o cheiro de carne vindo do açougue

De fato, esse caso envolvendo Luciana é típico de um país apodrecido na corrupção. Numa empresa privada, que se orienta na dedicação e competência do quadro administrativo, a educadora, com certeza, receberia tratamento à altura de sua dignidade

Luciana garante que a biblioteca, além dos problemas com os cães vira-latas, está muito aquém de uma estrutura apropriada. Tem um acervo em torno de 5 mil livros, muitos repetidos, distribuídos em duas salas pequenas com apenas três mesas, normalmente ocupadas pelos cinco funcionários. Quando chegam pessoas para realizar pesquisas os servidores ficam de pé. O banheiro não funciona e por baixo da pia se coloca um balde. O menor descuido, o chão fica todo molhado.

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Eles vagam pela cidade inteira e descansam da jornada nas salas da biblioteca

Eles vagam pela cidade inteira e descansam da jornada nas salas da biblioteca

Na cozinha, que não comporta  duas pessoas, não tem fogão. Os funcionários levam ebulidores, de suas casas, para aquecimento de água. A prefeitura nunca manda alimentos, café e açúcar. Só agora, por certo medo à Luciana, foram enviados tais artigos. Havia três anos e meio que 12 lâmpadas estavam queimadas. Também com a presença da professora foram trocadas. Coisa absurda, logo uma  biblioteca sem iluminação. O problema é que a própria cidade se encontra também na escuridão. E, acredite leitor, nem mesmo um computador  a biblioteca tem. Como isso é possível? Verdadeiro descaso ao setor da cultura. 

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