Durante 127 anos, os moradores acreditaram que o fundador Joaquim Gotardo de Lima  deu nome à cidade, sem nunca questionar porque o chamavam de santo. E nem jamais poderiam supor ou  mesmo sonhar que foi, isto sim, um bispo beneditino alemão com o mesmo nome de  Gotardo   o inspirador do topônimo. 

Da mesma maneira que os eventos cívicos de 21 de abril, sete de setembro e 15 de novembro ocupam lugar de destaque no calendário festivo nacional, o dia 27 de agosto deveria ter significado emblemático de um dos momentos mais sublimes da história de São Gotardo, no Alto Paranaíba. Nesta data, no ano de l885, há exatos 132 anos, o padre deputado Miguel Dias Kerdole, inspirado em um santo europeu cujo nome coincidentemente  era o mesmo do fundador da cidade Joaquim Gotardo de Lima, alterava o topônimo da Vila de São Sebastião do Pouso Alegre para o atual, pela Lei 3.300 aprovada no então Senado de Ouro Preto. Não obstante, em pouco tempo, os fatos envolvendo a mudança de designações caíram no esquecimento e o nome da localidade ficou associado a Joaquim Gotardo. 

Na verdade, é  lamentável  que a efeméride, por descuido ou menosprezo,   simplesmente virou registro jogado  no arquivo morto da Prefeitura, motivo pelo qual não consta das programações comemorativas por parte dos setores de educação e cultura. Ao longo dos anos, elas preferem optar pela data de 30 de setembro de 1915, da emancipação de Rio Paranaíba, ignorando os capítulos mais importantes da história local abrangente de 181 anos, perto de completar dois séculos. No dia 30 de setembro próximo, o município comemora 102 anos de emancipação como se  único período  de sua  existência.

Assim, quando a municipalidade coloca nas ruas os desfiles de estudantes festejando apenas sua autonomia administrativa fica para trás, jogado na vala comum do esquecimento, um período de 79 anos das verdadeiras origens da cidade começando pelo Arraial da Confusão em 1836 passando por são Sebastião do Pouso Alegre em 1852. Não é nenhum exagero dizer: um cidadão que não conhece a história de sua comunidade jamais poderá ser  bom  educador, bom vereador ou um bom prefeito, por se configurar, nesse caso, ausência de valores culturais e morais a serem defendidos e  protegidos. Explica-se aí o descalabro político reinante nesta cidade.

Torna-se necessário esclarecer, para fins de exemplo, que Mariana e Ouro Preto não se tornaram parte da história somente depois de suas autonomias administrativas. Muito pelo contrário, são lembradas a partir de suas descobertas, dos povoamentos iniciais. Mariana figura nos anais  desde 16 de julho de 1696, há 321 anos, quando o sertanista Salvador Furtado de Mendonça encontrou pepitas de ouro no Ribeirão Nossa Senhora do Carmo. Como prova  disso vai aqui um lembrete: no dia 16 de julho, a capital do Estado de Minas Gerais é simbolicamente transferida para lá. A mesma coisa se repetiria em Ouro Preto, em 24 de junho de 1697, há 320 anos, quando ali chegou Antônio Dias de Oliveira. Apesar de inicialmente batizadas com outros nomes, como se deu em São Gotardo, as duas vilas do ouro se fazem presentes na história a partir de quando fundadas.

Em se tratando de São Gotardo a história desse município foi absurdamente seccionada no seu calendário de festvifdades cívicas dando-se muito mais importância ao pós 1915 em detrimento à sua ancestralidade que é a fase anterior alicerçada na fundação do Arraial da Confusão e a Vila de São Sebastião do Pouso Alegre.

Nestas duas povoações ocorreram os principais fatos ligados às origens, costumes, tradições e, atente-se, aos incríveis acontecimentos motivadores da Lei 3.300, em 1885, que resultou no atual topônimo. Uma linda história ilustrando essa fase! Afinal, quais as razões levaram o padre deputado e também vigário de São Sebastião, Miguel Dias Kerdole, a apresentar no Senado de Ouro Preto o projeto de lei visando modificar  a designação desta vila para o de São Gotardo?

Rotineiramente, os fiéis frequentadores da Matriz de São Sebastião podem ver, de quatro anos para cá, após 127 anos de esquecimento, a imagem recentemente lá introduzida de um santo europeu nascido há mais de mil anos na Alemanha. Trata-se do bispo beneditino Sankt Gottthard que, coincidentemente, tinha o mesmo nome do fundador Gotardo.  Esse feliz acaso motivou o padre político à alteração do topônimo, homenageando os dois. Sendo ele um padre, conhecedor  de assuntos religiosos, com certeza, sabia da coincidência e tomou a iniciativa  da mudança. É lamentável, contudo, que tão importante fase contendo as origens do município tenha sido segregada da história. Mas nem tudo está perdido! Quem desejar participar desses sublimes e decisivos momentos envolvendo fatos locais ocorridos, há mais de 120 anos, basta clicar no link, abaixo:

CENTRO-OESTE/MG – “ERRO HISTÓRICO: SÃO GOTARDO NÃO LEVA O NOME DE JOAQUIM GOTARDO

 

 

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